Quem pretende se aposentar cedo geralmente encontra o mesmo alerta: cuidado com a regra dos 4%, porque ela foi pensada para aposentadorias de 30 anos Se você pretende viver do patrimônio por 40, 50 ou 60 anos, precisaria reduzir bastante a taxa de retirada.
Sempre tive minhas dúvidas sobre o tamanho desse efeito.
Claro que o horizonte importa. Uma carteira que precisa durar 60 anos está sendo exigida por muito mais tempo do que uma que precisa durar 30. A pergunta que realmente interessa, porém, é outra:
Quanto isso muda a Taxa Segura de Retirada na prática?
Resolvi testar.
E o resultado foi mais interessante do que simplesmente dizer que “quanto maior o horizonte, menor a TSR”.
Sim, ela cai.
Mas a queda vai ficando cada vez menor conforme aumentamos o horizonte.
E há um padrão surpreendentemente consistente entre diferentes carteiras.
O teste
Usei a versão mais recente do simulador de TSR/PWR do AA40 que já tinha publicado lá atrás com dados mensais brasileiros de janeiro de 1995 a junho de 2026.
São 378 meses de pares de dados alinhados de:
- Ibovespa com retorno total;
- CDI;
- IPCA.
No período completo, tivemos:
| Série | Retorno nominal | Retorno real |
|---|---|---|
| Ibovespa | 12,38% a.a. | 5,40% a.a. |
| CDI | 14,98% a.a. | 7,84% a.a. |
| IPCA | 6,62% a.a. | — |
Para este teste aumentei bastante o rigor da simulação.
Foram 100 mil caminhos de Monte Carlo, cada um podendo chegar a 60 anos, utilizando bootstrap em blocos de 48 meses.
Isso é importante.
Não estou pegando meses aleatórios e montando uma aposentadoria Frankenstein onde janeiro de 2008 pode ser seguido por agosto de 2017 e depois março de 1999.
Cada bloco carrega quatro anos consecutivos da história brasileira, mantendo juntos naquele período os movimentos do Ibovespa, CDI e IPCA. Por que 4 anos? A duração de um mandato presidencial.
O patrimônio inicial simulado foi de R$ 1 milhão, as retiradas são corrigidas pela inflação e a carteira é rebalanceada anualmente.
Defini como “segura” a maior retirada que conseguiu sobreviver em pelo menos 95% das 100 mil simulações.
Depois testei quatro horizontes:
30, 40, 50 e 60 anos.
E nove carteiras, começando em 90% de renda variável e terminando em apenas 10%:
- 90% RV / 10% RF;
- 80% RV / 20% RF;
- 70% RV / 30% RF;
- …
- 20% RV / 80% RF;
- 10% RV / 90% RF.
Neste exercício:
RV = Ibovespa
RF = CDI
Os mesmos 100 mil cenários foram utilizados para todas as carteiras e todos os horizontes. Dessa forma, quando comparamos duas células da tabela, estamos comparando as estratégias dentro dos mesmos cenários econômicos.
Exemplo de um cenário (50% RV 50% RF, 50 anos)
O resultado
Esta foi a Taxa Segura de Retirada encontrada para uma probabilidade mínima de sucesso de 95%:
| Carteira | 30 anos | 40 anos | 50 anos | 60 anos |
|---|---|---|---|---|
| 10% RF / 90% RV | 2,49% | 2,00% | 1,74% | 1,58% |
| 20% RF / 80% RV | 2,90% | 2,41% | 2,14% | 1,99% |
| 30% RF / 70% RV | 3,32% | 2,82% | 2,56% | 2,42% |
| 40% RF / 60% RV | 3,75% | 3,24% | 2,98% | 2,84% |
| 50% RF / 50% RV | 4,14% | 3,63% | 3,38% | 3,24% |
| 60% RF / 40% RV | 4,52% | 4,01% | 3,76% | 3,63% |
| 70% RF / 30% RV | 4,85% | 4,34% | 4,10% | 3,97% |
| 80% RF / 20% RV | 5,13% | 4,62% | 4,37% | 4,25% |
| 90% RF / 10% RV | 5,33% | 4,81% | 4,56% | 4,44% |
A primeira leitura é óbvia: quanto maior o horizonte, menor a TSR.
Mas essa não foi a parte que mais me chamou a atenção.
Olhe, por exemplo, para uma carteira 50/50.
Ela passou de:
4,14% para 30 anos
para:
3,63% para 40 anos
3,38% para 50 anos
e:
3,24% para 60 anos.
Dobrar o horizonte de 30 para 60 anos reduziu a TSR em 0,90 ponto percentual.
É uma diferença relevante, sem dúvida.
Mas não é uma diferença gigantesca considerando que estamos pedindo para o mesmo patrimônio financiar mais 30 anos de aposentadoria.
Com R$ 1 milhão, estamos falando de uma retirada inicial anual de aproximadamente:
R$ 41.400 em um horizonte de 30 anos
contra:
R$ 32.400 em um horizonte de 60 anos.
A aposentadoria precisa durar o dobro do tempo, mas a retirada inicial não precisa cair pela metade.
Cai cerca de 22%.
A segunda década custa muito mais que a quarta
Aqui temos um dos resultados mais interessante de todo o teste.
A queda da TSR não é linear.
Usando novamente a carteira 50/50:
30 → 40 anos:
4,14% → 3,63%
queda de 0,51 ponto percentual
40 → 50 anos:
3,63% → 3,38%
queda de apenas 0,25 ponto percentual
50 → 60 anos:
3,38% → 3,24%
queda de apenas 0,14 ponto percentual
Ou seja:
a primeira década adicional custou cerca de meio ponto percentual de TSR.
A segunda custou metade disso.
A terceira, praticamente metade novamente.
E quando fui olhar as outras carteiras, apareceu praticamente o mesmo padrão.
| Período adicional | Queda aproximada da TSR |
|---|---|
| 30 → 40 anos | ~0,50 p.p. |
| 40 → 50 anos | ~0,25 p.p. |
| 50 → 60 anos | ~0,12 a 0,16 p.p. |
Achei isso muito mais interessante do que o número absoluto da TSR.
Independentemente de estarmos olhando uma carteira agressiva ou conservadora, o “custo” de estender o horizonte foi muito parecido. Isto se deve a natureza não linear dos juros compostos. “Assintoticidade”
De 30 para 60 anos: quase sempre 0,9 ponto percentual
Há ainda uma curiosidade nos números.
Veja quanto a TSR caiu ao passar diretamente de 30 para 60 anos:
| Carteira | TSR 30 anos | TSR 60 anos | Diferença |
|---|---|---|---|
| 10RF / 90RV | 2,49% | 1,58% | -0,91 p.p. |
| 20RF / 80RV | 2,90% | 1,99% | -0,91 p.p. |
| 30RF / 70RV | 3,32% | 2,42% | -0,90 p.p. |
| 40RF / 60RV | 3,75% | 2,84% | -0,91 p.p. |
| 50RF / 50RV | 4,14% | 3,24% | -0,90 p.p. |
| 60RF / 40RV | 4,52% | 3,63% | -0,89 p.p. |
| 70RF / 30RV | 4,85% | 3,97% | -0,88 p.p. |
| 80RF / 20RV | 5,13% | 4,25% | -0,88 p.p. |
| 90RF / 10RV | 5,33% | 4,44% | -0,89 p.p. |
Isso me surpreendeu um pouco a primeira vista.
Mudamos completamente a composição das carteiras e, ainda assim, o preço de transformar uma aposentadoria de 30 anos em uma de 60 ficou quase sempre entre 0,88 e 0,91 ponto percentual de retirada anual.
Há uma explicação matemática para pelo menos parte desse comportamento.
Em um modelo simplificado de retiradas, a taxa sustentável não diminui linearmente conforme aumentamos o horizonte. Ela converge progressivamente para um limite. Isso acontece porque o valor presente dos anos cada vez mais distantes vai ficando menor à medida que os retornos se acumulam.
É por isso que acrescentar dez anos entre 30 e 40 anos teve um efeito muito maior do que acrescentar dez anos entre 50 e 60.
Mas isso ainda não explica sozinho por que a diferença de 30 para 60 anos ficou tão próxima de 0,9 ponto percentual em praticamente todas as alocações.
Essa parte é um resultado empírico desta simulação.
As diferentes alocações alteraram fortemente o nível da TSR — principalmente por causa das diferenças de retorno e volatilidade entre Ibovespa e CDI — mas alteraram relativamente pouco o custo marginal de estender o horizonte. Visualmente, as curvas de TSR por horizonte ficaram quase paralelas.
Em outras palavras: neste conjunto de dados, mudar a carteira mudou muito “quanto posso retirar”, mas mudou pouco “quanto preciso reduzir a retirada para passar de 30 para 60 anos”.
Não chamaria isso de uma lei dos 0,9%. É uma característica bastante interessante do histórico brasileiro e da metodologia utilizada aqui, e precisaria aparecer novamente em outros períodos e modelos para podermos tratá-la como algo mais geral.
E se eu simplesmente usar os famosos 4%?
Fiz também o teste inverso.
Em vez de perguntar qual é a retirada que produz 95% de sucesso, fixei a retirada inicial em 4% e deixei o horizonte aumentar.
O resultado:
| Carteira | 30 anos | 40 anos | 50 anos | 60 anos |
|---|---|---|---|---|
| 10% RF / 90% RV | 78,4% | 70,1% | 65,4% | 62,4% |
| 20% RF / 80% RV | 84,0% | 76,5% | 72,1% | 69,4% |
| 30% RF / 70% RV | 88,9% | 82,4% | 78,5% | 76,1% |
| 40% RF / 60% RV | 92,9% | 87,5% | 84,0% | 82,0% |
| 50% RF / 50% RV | 96,0% | 91,8% | 89,0% | 87,2% |
| 60% RF / 40% RV | 98,1% | 95,1% | 92,9% | 91,5% |
| 70% RF / 30% RV | 99,3% | 97,4% | 95,8% | 94,8% |
| 80% RF / 20% RV | 99,9% | 98,9% | 97,7% | 96,9% |
| 90% RF / 10% RV | 100,0% | 99,5% | 98,8% | 98,2% |
Aqui o efeito do horizonte fica bem visível.
Na carteira 50/50, os 4% tiveram:
96,0% de sucesso em 30 anos
91,8% em 40 anos
89,0% em 50 anos
87,2% em 60 anos
Portanto não dá para concluir que o horizonte “não importa”.
Importa.
Se meu critério é exigir pelo menos 95% de sucesso, 4% passa no teste de 30 anos para essa carteira, mas já não passa no teste de 40 anos.
Ao mesmo tempo, também não vejo nesses números uma justificativa para tratar 50 ou 60 anos como se fossem problemas completamente diferentes.
Mesmo dobrando o horizonte, a taxa de sucesso não despenca para 50% ou 20%.
Ela passa de 96% para 87,2%.
Cada um terá uma opinião diferente sobre se 87% é aceitável ou não. Eu, particularmente, não usaria esse número sozinho para tomar uma decisão FIRE, já Michael Kitces sugere que 75% já é bom o suficiente se você for flexível.
Mas agora pelo menos conseguimos quantificar o efeito.
Então o horizonte importa ou não?
Minha conclusão depois deste teste é:
Sim, importa. Mas talvez menos do que normalmente imaginamos.
Principalmente depois dos primeiros 40 anos.
Se alguém me disser que pretende se aposentar aos 40 e por isso precisa planejar 50 anos em vez de 30, eu não ignoraria essa diferença.
Na carteira 50/50 deste estudo, passar de 30 para 50 anos reduziu a TSR de 4,14% para 3,38%.
É relevante.
Mas observe o que acontece depois.
Para acrescentar mais dez anos, chegando aos 60, a TSR caiu apenas de:
3,38% para 3,24%.
São 0,14 ponto percentual.
Para R$ 1 milhão de patrimônio:
R$ 1.400 por ano.
Essa é uma forma bem diferente de enxergar o problema.
Uma pessoa de 40 anos pode gastar muita energia discutindo se deve planejar até os 90 ou até os 100 anos, quando talvez existam premissas muito mais importantes no plano do que esses dez anos adicionais.
Há um motivo para o efeito diminuir?
Tenho uma hipótese simples.
O grande perigo para uma carteira em fase de retiradas não é apenas “ficar muitos anos aposentado”.
É sofrer uma sequência ruim de retornos enquanto os saques estão retirando capital da carteira.
Se uma carteira atravessa as primeiras décadas, mantém patrimônio e consegue crescer em termos reais, os anos adicionais começam a pesar proporcionalmente menos.
Isso aparece claramente nos resultados.
O salto:
30 → 40
foi muito mais caro do que:
50 → 60.
Não significa que viver mais não custe dinheiro.
Significa que o risco não cresce proporcionalmente ao número de anos.
Mas há um enorme asterisco brasileiro
Antes que alguém olhe a tabela e conclua que encontrou a carteira perfeita para FIRE no Brasil, precisamos falar do CDI.
Na nossa amostra de janeiro de 1995 a junho de 2026:
Ibovespa real: 5,40% ao ano
CDI real: 7,84% ao ano
Sim.
A renda fixa entregou retorno real superior à renda variável na amostra utilizada pelo simulador.
E fez isso com uma volatilidade muito menor.
Não deveria surpreender ninguém, portanto, que as carteiras com mais CDI tenham produzido TSRs muito maiores.
A carteira 90% RF / 10% RV, por exemplo, chegou a:
5,33% para 30 anos
e ainda:
4,44% para 60 anos.
Além disso, uma retirada de 4% sobre essa carteira sobreviveu a:
98,2% das simulações de 60 anos.
É um resultado fantástico.
Só não podemos dar o salto lógico de concluir:
“Logo, devo colocar 90% do patrimônio no CDI para os próximos 60 anos.”
O simulador não está dizendo isso.
Ele está dizendo que uma carteira com essas características teria se saído excepcionalmente bem quando construímos novos cenários a partir das características observadas no Brasil entre 1995 e 2026.
São coisas diferentes.
Não sabemos se o Brasil continuará oferecendo juros reais dessa magnitude nas próximas décadas.
E não temos 100 anos de histórico pós-Real para descobrir. Temos apenas 2 ciclos de 30 anos como já calculamos aqui
Por que usei blocos de 48 meses?
Também vale uma explicação rápida sobre a metodologia.
Em vez de sortear cada mês de forma independente, utilizei blocos contínuos de 48 meses.
Assim, quando o simulador sorteia determinado período, leva junto quatro anos da relação que realmente existiu entre:
Ibovespa + CDI + IPCA.
Isso mantém parte dos ciclos econômicos presentes nos dados, e ciclos presidenciais também.
Inflação persistente continua sendo persistente dentro daquele bloco.
Uma crise não vira apenas um mês isolado.
Um período prolongado de juros altos também permanece junto.
Ainda é uma simulação.
Ainda estamos limitados aos 378 meses de história disponíveis.
Mas considero essa abordagem mais adequada para esse tipo de exercício do que simplesmente embaralhar meses individuais.
O que este estudo não está dizendo
Há algumas conclusões que eu evitaria tirar destes números.
Ele não prova que 3,24% seja “a” TSR correta para alguém de 40 anos.
Não prova que 90% CDI seja a melhor carteira FIRE.
Não prova que o futuro repetirá 1995-2026.
Também não incorpora impostos, taxas e outros custos que reduzem o retorno disponível para o investidor.
E nosso critério de sucesso aqui é bastante objetivo:
O patrimônio não acabou antes do final do horizonte.
Uma carteira terminar com R$ 1 é tecnicamente sucesso nessa definição.
Isso é diferente de exigir preservação do patrimônio.
Para isso temos outra métrica: a PWR — Perpetual Withdrawal Rate, que exige manter o principal em termos reais.
Essa comparação fica para outro estudo.
O que eu aprendi com os números
Antes de rodar o teste, minha expectativa já era de que aumentar o horizonte não destruiria a Taxa Segura de Retirada.
Os resultados reforçaram essa impressão.
O horizonte tem efeito, mas ele parece ter retorno decrescente sobre o risco.
No nosso teste, aproximadamente:
30 → 40 anos custou 0,5 ponto de TSR.
40 → 50 custou mais 0,25.
50 → 60 custou apenas cerca de 0,14.
E dobrar o horizonte inteiro de 30 para 60 anos custou aproximadamente 0,9 ponto percentual, quase independentemente da composição da carteira.
Esse último resultado, para mim, foi o mais curioso.
Talvez a pergunta não devesse ser:
“Minha aposentadoria precisa durar 30 ou 60 anos?”
Mas:
“Quanto estou realmente pagando hoje para proteger esses anos adicionais?”
Pelos números deste experimento, o preço existe.
Só não é tão grande quanto a diferença entre 30 e 60 anos pode fazer parecer.
Como sempre, isto é uma simulação baseada em dados históricos e tem finalidade educacional. Não é recomendação de investimento e não existe garantia de que as relações entre Ibovespa, CDI e inflação observadas desde 1995 continuarão no futuro. Impostos, taxas e custos também não foram incluídos neste exercício.
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