Quem acompanha a finansfera provavelmente já viu a reportagem da DW sobre a Lilian, do Aposentada aos Trinta. Se não viu, vale assistir antes de continuar.
A ideia era falar sobre FIRE. Lilian contou que começou a perseguir a independência financeira aos 27 anos, poupou entre 50% e 70% da renda e, seis anos depois, aos 33, chegou ao ponto em que trabalhar por dinheiro deixou de ser uma obrigação. Até aí, nada muito diferente do que discutimos aqui no AA40 há quase uma década.
Só que a reportagem resolveu colocar um especialista em Previdência para fazer o contraponto e saiu a frase que acabou roubando a cena: FIRE seria um “absurdo” para quem não é herdeiro.
Pois é.
A Lilian escreveu um ótimo post explicando o que aconteceu nos bastidores e respondendo às críticas. E eu acho que vale acrescentar uma coisa à discussão porque, para mim, a reportagem expôs involuntariamente um dos maiores problemas que o movimento FIRE sempre teve:
O NOME
Mais especificamente, as duas últimas letras dele.
Todo mundo enxerga o RE. Quase ninguém enxerga o FI.
FIRE significa, como sabemos muito bem:
Financial Independence, Retire Early.
Independência Financeira, Aposentadoria Antecipada.
Qual dessas duas partes você acha que chamou a atenção da reportagem?
Qual delas chamou a atenção dos comentários?
Exatamente.
Ninguém ficou discutindo seriamente como uma pessoa consegue acumular patrimônio suficiente para que o trabalho se torne opcional.
Ninguém quis conversar muito sobre taxa de poupança, redução do custo de vida, juros compostos, investimento, risco de sequência de retornos, diversificação ou planejamento de longo prazo.
O assunto rapidamente virou:
“Mas como alguém pode se aposentar aos 33 anos?”
E depois:
“Isso não é possível para todo mundo.”
Pronto. Perdemos o FI e fomos discutir o RE.
Talvez por isso eu goste e adimire tanto do caminho que o ChooseFI tomou. Até no nome eles praticamente resolveram o problema.
Não é ChooseFIRE.
É ChooseFI.
A missão deles hoje é explicitamente disseminar e acelerar o caminho para a Financial Independence, e há bastante conteúdo por lá discutindo justamente que atingir FI não significa necessariamente parar de trabalhar.
Muito mais inteligente.
Aliás, o slogan que está há anos no topo deste blog tenta dizer exatamente a mesma coisa (mas acha que alguém leu isso?):
Independência Financeira é essencial. Aposentadoria antecipada é opcional.
“Aposentadoria” vem carregada de bagagem
No Brasil então, pior ainda.
Quando você fala em aposentadoria, muita gente imediatamente pensa em INSS.
Pensa em idade mínima.
Pensa em Previdência Social.
Pensa em alguém que trabalhou 35 anos, entregou a carteirinha, começou a receber benefício do governo e foi cuidar do jardim.
Ou, pior, associa aposentadoria precoce a alguém que resolveu parar de “contribuir para a sociedade”.
Só que FIRE não tem absolutamente nada a ver com isso.
Quem chega à independência financeira aos 35, 40 ou 45 anos usando o próprio patrimônio não está pedindo aposentadoria ao governo.
Não está propondo reduzir a idade mínima do INSS.
Não está pedindo dinheiro de ninguém.
Não está sequer obrigado a parar de trabalhar.
A pessoa simplesmente acumulou ativos suficientes para pagar suas despesas.
Só isso.
Por isso achei particularmente estranha a decisão de transformar uma matéria sobre independência financeira em uma discussão sobre Previdência Social – mas a midia tradicionar é essa m***.
A própria Lilian conta que tentou deixar essa diferença clara durante a entrevista. Na edição final, surpresa, entrou até a discussão sobre mulheres que antigamente conseguiam se aposentar cedo pelo sistema previdenciário.
São duas coisas completamente diferentes.
Uma pessoa FIRE não está dizendo:
“Sociedade, pague minha aposentadoria aos 40.”
Ela está dizendo:
“Eu acumulei patrimônio suficiente e agora pago minhas próprias contas.”
Para um especialista em Previdência, isso deveria ser uma excelente notícia.
“Mas isso não funciona para todo mundo”
Esse foi talvez o argumento que mais apareceu.
E ele é verdadeiro.
FIRE não funciona para todo mundo.
Só não entendo desde quando alguma estratégia de finanças pessoais precisa funcionar para 100% da população para ser válida.
Comprar imóvel não funciona para todo mundo.
Abrir empresa não funciona para todo mundo.
Fazer faculdade de medicina não funciona para todo mundo.
Morar no exterior não funciona para todo mundo.
Investir 50% da renda certamente não funciona para todo mundo.
E daí?
A reportagem lembra corretamente que uma parcela grande da população brasileira ganha muito pouco e que poupar 50% ou 70% da renda está completamente fora da realidade dessas pessoas. O próprio especialista citado ressalta esse ponto.
Concordo.
Mas daí concluir que FIRE é um “absurdo” como na maioria dos comentários é um salto lógico gigantesco. Mas olha de quem estou esperando lógica – do povo brasileiro lol !
FIRE não é política pública.
Não é um programa governamental.
Não é uma proposta de substituição do INSS.
É uma estratégia individual para quem possui renda e margem de poupança suficientes para executá-la.
E existe muita gente nessa situação no Brasil.
Talvez não seja a maioria.
Nunca dissemos que era.
E o tal “privilégio”?
Outro argumento inevitável.
Lilian teve boa renda, educação, conhecimento financeiro, não tinha filhos durante a acumulação e conseguiu poupar muito.
Sim.
Tudo isso facilitou.
A própria Lilian reconhece isso sem problema algum.
Mas existe uma coisa curiosa nessa discussão.
Se uma pessoa tem renda alta e gasta tudo, comprando carro caro, apartamento maior, viagens, roupas e elevando o padrão de vida continuamente, ninguém aparece para dizer:
“Isso é privilégio!”
Agora experimente ganhar a mesma renda, gastar 30% e investir 70%.
De repente precisamos organizar um seminário sociológico para descobrir se você tinha autorização moral para fazer aquilo.
Não faz muito sentido.
Privilégio aumenta suas possibilidades.
O que você faz com essas possibilidades continua sendo uma escolha.
Duas pessoas ganhando R$ 20 mil podem terminar vinte anos depois em situações financeiras completamente diferentes.
Isso não elimina desigualdade, não elimina sorte e não elimina circunstâncias pessoais.
Mas também não elimina escolhas.
Finanças pessoais existem justamente porque escolhas importam.
A regra dos 4% também não cabe em 30 segundos
Outra coisa que me incomodou foi a simplificação da regra dos 4%.
Na matéria ela aparece quase como “junte 25 vezes seus gastos, saque 4% por ano e pronto”.
Quem lê o AA40 sabe que não é tão simples assim.
Aliás, coincidentemente, acabamos de publicar um estudo inteiro perguntando qual é o efeito de aumentar o horizonte da aposentadoria de 30 para 40, 50 ou 60 anos.
Por quê?
Porque horizonte importa.
Alocação importa.
Valuation importa.
Sequência de retornos importa.
Inflação importa.
Flexibilidade de gastos importa.
A TSR não é uma pedra gravada por Moisés.
A discussão FIRE ficou sofisticada demais ao longo dos últimos 30 anos para ser resumida a “economize bastante e saque 4%”.
Mas televisão precisa transformar assuntos complexos em poucos minutos. Por isso a midia tradicional está com os seus dias contados a medida que a população fica mais inteligente – mas vai demorar como vimos nos comentários lá.
E FIRE talvez seja um daqueles assuntos que sofre particularmente com isso.
Os comentários dizem mais sobre o FIRE do que a reportagem
Depois vieram os comentários.
E aí aparecem as teorias de sempre.
Deve ter herdado.
O pai deve ter dado apartamento.
O marido deve bancar.
Deve ganhar dinheiro escondido.
Não vai durar.
Quero ver quando ficar velha.
Quero ver quando tiver filhos.
Quero ver quando o mercado cair.
Diante de alguém dizendo “poupei grande parte da minha renda durante anos e investi”, algumas pessoas parecem considerar qualquer explicação mais plausível do que simplesmente:
Ela poupou grande parte da renda durante anos e investiu.
Em um dos comentários no próprio blog da Lilian alguém observou algo ainda mais desagradável: parte das reações procurava especificamente um homem — pai ou marido — para explicar como uma mulher conseguiu alcançar a independência financeira.
A matemática aparentemente deixa de funcionar quando quem fez as contas foi uma mulher!
Felizmente, houve também a reação contrária.
Pouco depois surgiu no r/IFBrasil um tópico chamado “Vamos apoiar a Lílian (Aposentada aos 30) contra o hate da mídia tradicional?”.
O autor lembra uma coisa importante: é raríssimo alguém da comunidade FIRE brasileira colocar nome, rosto e história na internet para falar de patrimônio, independência financeira e aposentadoria antecipada.
A maioria de nós escreve atrás de pseudônimo. Inclusive nós no AA40 por que sabemos disso tudo.
Lilian colocou a cara a tapa.
E por isso acho que merece crédito, inclusive de quem discorda dela em vários pontos.
O tópico do Reddit pediu justamente que a comunidade fosse ao blog apoiá-la e mostrando que existe gente séria perseguindo independência financeira no Brasil.
Faço coro. Vá lá e apoio ela, apoie nossa pequena comunidade
Discordar da estratégia é perfeitamente válido.
Questionar a TSR, ótimo.
Questionar a alocação, melhor ainda.
Discutir riscos de uma aposentadoria de 60 anos? Vamos colocar os dados na mesa.
Agora dizer simplesmente que é impossível, que é “absurdo” ou inventar uma herança invisível porque os números incomodam já não é debate financeiro.
FIRE não significa virar vagabundo
Talvez esse seja o ponto mais difícil de explicar para quem está fora da bolha.
RE não significa necessariamente ficar deitado numa rede pelos próximos 50 anos.
Na verdade, conheço pouca gente financeiramente independente que realmente não faça nada.
A pessoa escreve.
Abre empresa.
Viaja.
Cuida dos filhos.
Estuda.
Faz consultoria.
Trabalha meio período.
Cuida da saúde.
Administra investimentos.
Muda de profissão.
Faz exatamente o mesmo trabalho de antes, mas agora com a deliciosa possibilidade de mandar o chefe catar coquinho se aquilo deixar de fazer sentido.
Isso é FIRE.
Ou melhor:
Isso é FI.
O grande prêmio não é nunca mais trabalhar.
É nunca mais precisar trabalhar para pagar a conta de luz.
Há uma diferença enorme.
Como o Brad do ChooseFI sempre fala: Dentre as milhões de coisas que você pode fazer na vida, vender seu tempo para alugém é a melhor decisão que você pode fazer? Pense nisso.
Talvez FIRE nunca deva ficar popular
Depois de ver a reportagem e principalmente alguns comentários, fiquei pensando que talvez nós estejamos tentando resolver um problema que não precisa ser resolvido.
Talvez FIRE simplesmente nunca seja popular.
E quer saber?
Ainda bem.
Imagine se amanhã todo mundo descobrisse que não precisa trocar de carro a cada três anos.
Que o celular de dois anos atrás continua funcionando.
Que não precisa aumentar o padrão de vida toda vez que recebe aumento.
Que financiar consumo a juros altos é um péssimo negócio.
Que boa parte das compras feitas para impressionar pessoas que nem conhecemos poderia virar patrimônio.
Que ETFs permitem comprar pequenas participações em milhares de empresas.
Seria um desastre para o capitalismo de consumo.
Nós investidores precisamos de clientes.
Precisamos de gente comprando o celular novo porque mudou a câmera.
Precisamos de SUVs cada vez maiores.
Precisamos de cartão de crédito passando.
Precisamos de assinaturas esquecidas.
Precisamos de gente pagando conveniência, trocando coisas perfeitamente funcionais e confundindo aumento de renda com obrigação de aumentar o padrão de vida.
Não estou reclamando.
Muito pelo contrário.
Enquanto alguns preferem estar majoritariamente do lado do consumo, eu prefiro estar cada vez mais do lado da propriedade dos ativos que atendem esse consumo.
Cada um escolhe seu lado do balanço.
Obviamente todos nós consumimos e devemos consumir. Dinheiro também existe para proporcionar uma vida boa.
A diferença está em quem controla quem.
Você controla seu consumo ou seu consumo controla você?
No fim, talvez FIRE continue sendo um movimento pequeno justamente porque exige algo muito difícil: abrir mão de consumo presente mesmo tendo dinheiro para consumi-lo.
Isso nunca será popular.
E está tudo bem.
As empresas continuarão tendo clientes.
Nossos ETFs agradecem.
E nós continuaremos aqui na nossa pequena bolha tentando descobrir quantos anos de despesas precisamos acumular para que ninguém mais possa decidir o que fazemos com as próximas oito horas do nosso dia.
Quanto à Lilian: parabéns por colocar a cara a tapa.
Talvez a reportagem não tenha explicado FIRE tão bem quanto poderia. Ou at all.
Mas, involuntariamente, mostrou perfeitamente por que ainda precisamos falar sobre ele.
