Dividendos valem a pena? Viver de renda ou vender ações
Dividendos importam porque representam uma parcela do retorno que as empresas entregam aos acionistas. Mas receber dividendos não significa ganhar dinheiro adicional automaticamente. Para quem busca independência financeira, o que realmente importa é o retorno total da carteira, depois dos impostos e custos, combinado com uma estratégia de retirada que consiga sobreviver aos momentos ruins do mercado.
Em 2018, publiquei aqui no AA40 um artigo defendendo a importância dos dividendos para o investidor de longo prazo. Na época, destaquei empresas com pagamentos crescentes, o efeito do reinvestimento e a tranquilidade de receber dinheiro sem precisar vender ações. Continuo achando que existe valor nessa abordagem, mas, depois de tantos anos estudando FIRE e taxas seguras de retirada, vejo alguns pontos que merecem uma análise mais cuidadosa.
Recentemente, li um texto de Brad, do ChooseFI, com uma provocação interessante. Ele dizia não entender o fascínio de alguns investidores pelos dividendos, já que distribuir dinheiro aos acionistas não cria riqueza por si só. Em vez de receber dividendos automaticamente, ele prefere ter liberdade para vender suas ações quando realmente precisar do dinheiro.
É um argumento forte. E, antes que os defensores dos dividendos comecem a preparar as pedras, adianto que ele está matematicamente correto. Isso não significa, porém, que receber dividendos seja inútil ou que todas as empresas devam reter integralmente seus lucros. A questão é um pouco mais interessante do que essa disputa costuma sugerir.
Dividendos são dinheiro grátis? Entenda o que realmente acontece
Imagine que você possui 100 ações de uma empresa, cada uma negociada a R$ 100. Seu patrimônio nessa posição é de R$ 10 mil. A companhia anuncia o pagamento de R$ 5 por ação em dividendos, totalizando R$ 500 para você.
Na data ex-dividendo, desconsiderando outros movimentos de mercado, a ação passa a valer aproximadamente R$ 95. Você continua com as mesmas 100 ações, agora avaliadas em R$ 9.500, e tem o direito de receber R$ 500 em dinheiro.
Seu patrimônio econômico continua sendo de R$ 10 mil. Você não ficou R$ 500 mais rico simplesmente porque a empresa decidiu distribuir parte dos seus recursos.
| Patrimônio | Antes | Depois do dividendo |
|---|---|---|
| Valor das ações | R$ 10.000 | R$ 9.500 |
| Dinheiro a receber | R$ 0 | R$ 500 |
| Total | R$ 10.000 | R$ 10.000 |
Esse é o ajuste teórico. No mercado real, as cotações também respondem a notícias, expectativas e negociações, portanto o preço não precisa cair exatamente o valor distribuído.
A distribuição transfere recursos da empresa para o acionista. O capital que estava disponível dentro da companhia deixa de estar lá, e isso precisa ser refletido no seu valor econômico. É por isso que comprar uma ação na véspera do pagamento para embolsar o dividendo e vendê-la logo depois não representa uma oportunidade de lucro garantido.
O ChooseFI utiliza um exemplo semelhante e conclui que o dinheiro apenas mudou de lugar. Concordo com essa parte. Aliás, a explicação da Vanguard sobre dividendos e a data ex-dividendo confirma o mecanismo.
A pergunta que realmente interessa é outra. Se os dividendos não criam riqueza automaticamente, por que continuam sendo tão relevantes para tantos investidores?
Por que os dividendos importam no longo prazo?
Existe uma diferença fundamental entre afirmar que o pagamento de dividendos não gera retorno adicional no instante da distribuição e concluir que os dividendos não têm importância na rentabilidade das ações.
Um estudo publicado pela S&P Dow Jones Indices em março de 2025 estimou que, desde 1926, os dividendos representaram aproximadamente 31% do retorno total histórico do S&P 500. Os outros 69% vieram da valorização do capital. É uma contribuição expressiva, especialmente quando pensamos em quase um século de investimentos.
O dado mostra a importância das distribuições como componente do retorno dos acionistas. Mas não significa que uma carteira selecionada exclusivamente pelo maior dividend yield teria superado o índice. São coisas diferentes, e confundir as duas é um dos erros mais comuns entre investidores de dividendos.
O retorno total considera tanto a valorização das ações quanto o dinheiro distribuído. Quando os dividendos são reinvestidos, a rentabilidade acumulada incorpora os retornos obtidos sobre essas novas aplicações. É por isso que precisamos tomar cuidado ao comparar um índice de preços, que desconsidera dividendos, com uma carteira que os reinveste. Essa comparação favorece artificialmente a segunda estratégia.
O reinvestimento realmente pode ampliar bastante o patrimônio ao longo de décadas. Quem recebe R$ 1.000 e compra mais ações coloca esse dinheiro novamente para trabalhar. Porém, uma empresa que mantém os mesmos R$ 1.000 dentro do negócio também pode gerar retorno sobre esse capital, desde que tenha oportunidades suficientemente rentáveis.
O que faz a diferença é a produtividade do dinheiro, não o caminho percorrido por ele.
Uma empresa deveria pagar dividendos ou reinvestir os lucros?
Suponha que uma empresa gere R$ 100 milhões de caixa disponível para alocação. Seus administradores podem distribuir esse valor aos acionistas, investir em novos projetos, reduzir dívidas, adquirir outras empresas ou recomprar ações.
Agora imagine que a companhia consiga reinvestir esses R$ 100 milhões em projetos com retorno esperado de 15% ao ano, considerando adequadamente o risco. Seria necessariamente melhor distribuir todo o dinheiro?
Provavelmente não. Se esse retorno superar o custo de capital e representar uma oportunidade real de criação de valor, reter e investir os recursos pode ser muito mais vantajoso para os acionistas.
Mas inverta o cenário. Imagine uma empresa madura, com poucas possibilidades de expansão, que insiste em gastar dinheiro em aquisições caras ou projetos que rendem menos do que seu custo de capital. Nesse caso, devolver os recursos aos proprietários pode ser a decisão mais racional.
É aqui que os dividendos ganham importância econômica. Uma política de distribuição pode limitar a quantidade de dinheiro disponível para decisões ruins da administração, impor disciplina financeira e indicar que a empresa consegue devolver capital aos sócios sem prejudicar suas operações.
Não é uma garantia de boa gestão. Existem empresas que distribuem mais do que deveriam e outras que administram muito bem os recursos retidos. Entretanto, uma política sustentável de dividendos pode ser uma característica positiva, especialmente em negócios maduros e com geração de caixa previsível.
O importante é entender que o dividendo deve ser consequência de uma boa alocação de capital, não seu objetivo principal.
O que Warren Buffett pensa sobre os dividendos?
O ChooseFI menciona uma carta de Warren Buffett aos acionistas da Berkshire Hathaway, publicada em 2012. Recomendo a leitura porque Buffett desenvolve uma comparação interessante entre distribuir dividendos e permitir que o investidor venda pequenas parcelas de suas ações.
Seu argumento é que uma política de dividendos impõe a todos os acionistas uma decisão sobre quanto dinheiro retirar do negócio. Alguns querem renda imediata, outros preferem continuar acumulando patrimônio. Quando a companhia distribui, ninguém pode simplesmente escolher não receber aquela parcela.
Ao vender ações, por outro lado, cada investidor decide quando e quanto deseja transformar em dinheiro. Buffett também demonstra que, em determinadas condições, vender pequenas quantidades de uma participação pode preservar mais valor do que receber dividendos, especialmente quando a companhia consegue reinvestir seus lucros com elevada rentabilidade e a tributação favorece a venda.
Isso, porém, depende das premissas. Não significa que qualquer empresa conseguirá reinvestir seu capital com a mesma competência da Berkshire.
E existe um detalhe frequentemente esquecido nessa discussão. Na própria carta, Buffett elogia empresas que mantêm políticas consistentes de dividendos e reconhece que a distribuição pode ser uma boa decisão. Ele também considera positivas as recompras de ações realizadas a preços adequados.
Ou seja, Buffett não considera dividendos algo ruim por definição. Ele quer que cada dólar produzido por uma empresa seja utilizado da maneira mais inteligente possível.
O investidor deveria querer exatamente a mesma coisa.
Viver de dividendos ou vender ações: qual estratégia funciona melhor no FIRE?
Aqui chegamos à parte que considero mais importante para os leitores do AA40. Afinal, quem busca independência financeira não está apenas tentando acumular patrimônio. Em algum momento, precisará transformar esse patrimônio em dinheiro para pagar as contas.
Imagine duas pessoas que chegaram ao FIRE com R$ 2 milhões investidos e precisam de R$ 80 mil no primeiro ano para suas despesas.
O primeiro investidor possui uma carteira que distribui 4% ao ano em dividendos. Ele recebe os R$ 80 mil e utiliza esse dinheiro para viver, sem vender nenhuma ação.
O segundo investidor possui uma carteira diversificada que distribui menos dividendos. Ele recebe os proventos existentes e vende a quantidade de ativos necessária para completar os mesmos R$ 80 mil.
Qual dos dois está financeiramente melhor?
Não podemos responder apenas observando os dividendos. Se as carteiras apresentarem retornos totais idênticos, os mesmos riscos, custos e consequências tributárias, a forma de transformar investimentos em dinheiro não produzirá, por si só, uma diferença patrimonial relevante.
O primeiro investidor continuará possuindo a mesma quantidade de ações, mas isso não significa que seu patrimônio econômico esteja intacto. O segundo terá menos cotas ou ações, mas o valor de cada unidade poderá crescer com o tempo. O número de unidades em carteira não determina sozinho a riqueza de ninguém.
Há ainda uma confusão frequente entre dividend yield e taxa segura de retirada. Uma carteira distribuir 4% do seu valor em dividendos não significa que gastar esse rendimento será sustentável por 30 ou 40 anos. Os pagamentos podem cair, a inflação pode superar seu crescimento e o patrimônio pode sofrer perdas importantes.
Da mesma forma, a conhecida regra dos 4%, que explicamos no AA40, não estabelece que basta encontrar investimentos pagando 4% ao ano. Ela parte de uma metodologia histórica de retiradas e considera a evolução do patrimônio, a inflação, a composição da carteira e o horizonte de aposentadoria.
Para quem pretende viver 40 ou 50 anos de renda passiva, essa distinção é fundamental.
Mas receber dividendos não evita vender ações durante uma crise?
Esse talvez seja o argumento emocionalmente mais forte dos investidores que preferem viver de dividendos.
Imagine que a bolsa caiu 35% e você precisa retirar dinheiro para pagar suas despesas. Vender parte da carteira nesse momento pode ser bastante desconfortável. O investidor vê o patrimônio encolher e ainda precisa reduzir sua quantidade de ações.
Quem recebe dividendos pode atravessar o mesmo período sem realizar vendas, desde que os pagamentos sejam suficientes. Isso pode ajudar a manter a estratégia e evitar decisões precipitadas.
Entretanto, é preciso separar conforto psicológico de proteção econômica. Uma empresa que paga dividendos enquanto suas ações caem continua exposta à crise. Se a deterioração dos resultados for suficientemente grave, o pagamento poderá ser reduzido ou suspenso. A pandemia de 2020 deixou isso bastante claro, inclusive entre companhias historicamente conhecidas por distribuir proventos.
Receber dividendos em vez de vender ações não elimina automaticamente o risco de sequência de retornos. O que determina a sobrevivência da carteira é a combinação de desempenho dos investimentos, tamanho das retiradas, inflação, impostos e decisões tomadas ao longo do tempo.
A diferença psicológica, no entanto, merece respeito. Uma estratégia que parece perfeita na planilha, mas faz o investidor entrar em pânico durante cada crise, talvez não seja a melhor estratégia para aquela pessoa.
Só não podemos transformar essa preferência comportamental em uma suposta vantagem matemática que não foi demonstrada.
Uma carteira FIRE bem planejada pode combinar investimentos diversificados, ativos geradores de renda e reservas de liquidez para as despesas de curto prazo. Isso permite utilizar dividendos quando forem recebidos e realizar vendas planejadas quando necessário, sem transformar nenhuma dessas operações em um tabu.
Dividendos ou venda de ações? No Brasil, os impostos mudam a resposta
Uma das principais críticas do ChooseFI aos dividendos faz bastante sentido nos Estados Unidos, mas precisa ser analisada com cuidado antes de ser aplicada ao investidor brasileiro. O argumento é que, ao receber dividendos, o acionista perde parte do controle sobre o momento de pagar impostos. A empresa decide quando distribuir o dinheiro e, mesmo que ele seja imediatamente reinvestido, normalmente existe um evento tributário. Já quem vende ações escolhe quando realizar os ganhos e pode administrar melhor sua carga tributária. Para um americano que busca independência financeira, essa flexibilidade pode representar uma vantagem importante.
No Brasil, entretanto, a situação é bastante diferente. Durante décadas, os dividendos pagos por empresas brasileiras foram isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas. Mesmo com a mudança introduzida pela Lei 15.270/2025, que passou a produzir efeitos em 2026, a maioria dos pequenos e médios investidores continua podendo receber dividendos sem pagar imposto pessoal sobre essas distribuições. A nova legislação prevê retenção de 10% quando uma mesma empresa distribui mais de R$ 50 mil para um mesmo investidor em determinado mês, além de um regime de tributação mínima para pessoas físicas com rendimentos anuais superiores a R$ 600 mil. São mudanças relevantes, mas muito diferentes de um imposto aplicado automaticamente a todos os dividendos recebidos.
Imagine um brasileiro que construiu uma carteira capaz de gerar R$ 10 mil mensais em dividendos de empresas nacionais, sem outros rendimentos que alterem seu enquadramento tributário. Pelas regras gerais vigentes em 2026, ele pode utilizar esses R$ 120 mil anuais para financiar suas despesas sem pagar Imposto de Renda sobre os dividendos. Um investidor americano que recebe valor equivalente em dividendos de uma conta tributável precisa considerar a tributação americana, embora, dependendo de sua renda e da classificação dos dividendos, a alíquota federal também possa ser zero.
Agora imagine que o brasileiro precise retirar R$ 30 mil mensais. Se conseguir receber esse valor em dividendos isentos, poderá utilizá-lo integralmente. Se precisar vender R$ 30 mil em ações todos os meses, perderá a isenção normalmente concedida às vendas mensais de até R$ 20 mil em ações negociadas no mercado à vista. Havendo lucro, o ganho líquido poderá ser tributado em 15%. Evidentemente, o imposto incide sobre o lucro realizado, e não sobre todo o dinheiro obtido com a venda.
Isso significa que viver de dividendos é necessariamente melhor do que vender ações no Brasil? Não. Um investidor que precisa de R$ 10 mil mensais também pode obter esse dinheiro vendendo ações dentro do limite mensal de isenção, respeitadas as condições da legislação. Além disso, empresas que não distribuem dividendos podem reinvestir seus lucros e proporcionar valorização suficiente para compensar eventuais impostos futuros. A tributação é uma variável fundamental, mas não substitui a análise do retorno total.
O que considero problemático é importar uma conclusão construída sobre a realidade tributária americana e aplicá-la automaticamente ao mercado brasileiro. No Brasil, receber dividendos isentos pode representar uma vantagem fiscal concreta, especialmente quando a alternativa exige vendas mensais superiores ao limite de isenção. Isso não transforma os dividendos em dinheiro grátis, mas também não permite descartá-los como financeiramente indiferentes em todas as circunstâncias.
Para o investidor brasileiro que busca FIRE, a comparação correta precisa considerar quanto cada estratégia entrega efetivamente no bolso, depois dos impostos, dos custos e dos riscos assumidos. A matemática dos dividendos é universal. A tributação não é.
O perigo de escolher ações apenas pelo dividend yield
Quem acompanha o AA40 há algum tempo sabe que nunca gostei da ideia de comprar uma empresa simplesmente porque ela aparece no topo de um ranking de dividendos.
O dividend yield é calculado dividindo os dividendos por ação pelo preço da ação, normalmente utilizando pagamentos dos últimos 12 meses ou distribuições projetadas.
Suponha que uma ação custe R$ 100 e tenha distribuído R$ 5 nos últimos 12 meses. Seu dividend yield histórico é de 5%. Se a cotação cair para R$ 50, mantendo os mesmos dividendos passados, o indicador passa a mostrar 10%.
Isso significa que a empresa se tornou um investimento duas vezes melhor? Evidentemente não.
Talvez o mercado esteja exagerando na queda. Mas também é possível que os lucros estejam sob ameaça e que os R$ 5 distribuídos no passado não se repitam.
Dividendos elevados podem resultar de bons negócios comprados a preços baixos, mas também podem refletir problemas financeiros, distribuições extraordinárias ou políticas insustentáveis.
Outro indicador bastante popular entre investidores de dividendos é o yield on cost, que compara os pagamentos atuais com o preço original de aquisição.
Imagine que você comprou uma ação por R$ 100 e hoje ela distribui R$ 12 anuais. Seu yield on cost é de 12%. Parece excelente. Mas suponha que a ação agora esteja valendo R$ 400. O dividend yield sobre seu valor de mercado é de apenas 3%.
Os 12% representam uma informação histórica interessante, mas não significam que você tenha encontrado uma aplicação que rende 12% sobre os R$ 400 que possui atualmente. Esse capital tem um custo de oportunidade, e a decisão de manter a ação precisa considerar seu valor atual, os riscos e os retornos esperados daqui para frente.
O preço pago originalmente não deveria ser a principal justificativa para continuar investido em uma empresa.
Na hora de avaliar uma pagadora de dividendos, prefiro olhar para a geração recorrente de caixa, endividamento, necessidade de reinvestimentos, sustentabilidade do payout, retorno sobre o capital e preço da ação. O histórico de distribuições ajuda, mas não substitui essas informações.
Afinal, vale a pena investir em ações que pagam dividendos?
Sim. Existem excelentes razões para possuir empresas que distribuem dividendos e existem excelentes razões para possuir empresas que preferem reinvestir seus lucros.
Uma companhia madura, lucrativa, com bom retorno sobre o capital e poucas oportunidades atraentes de expansão pode criar valor devolvendo recursos aos acionistas. Uma empresa em crescimento, capaz de aplicar grandes quantidades de capital a taxas elevadas, talvez crie muito mais riqueza mantendo seus lucros dentro do próprio negócio.
Para o investidor, o desafio é identificar boas oportunidades sem criar restrições artificiais à carteira.
Se você só compra ações que pagam dividendos elevados, pode acabar excluindo empresas excelentes, concentrando demais seus investimentos em determinados setores ou sacrificando crescimento futuro em troca de uma renda imediata aparentemente atraente.
Por outro lado, se você prefere construir uma carteira de empresas com políticas de distribuição consistentes, entende os riscos e aceita os possíveis custos dessa escolha, não há motivo para abandonar a estratégia simplesmente porque alguém demonstrou que dividendos não são dinheiro grátis.
A questão é saber exatamente o que está comprando e por quê.
Para quem ainda está acumulando patrimônio, uma abordagem diversificada de retorno total, com reinvestimento dos recursos disponíveis, costuma ser uma referência simples e difícil de ignorar. Para quem já está vivendo de renda, os dividendos podem facilitar o fluxo de caixa, mas deveriam fazer parte de uma política de retiradas mais ampla.
Não considero necessário escolher entre ser um investidor de dividendos e seguir uma estratégia FIRE baseada em retorno total. O próprio índice de mercado já reúne empresas que distribuem dividendos e empresas que retêm uma parcela maior dos resultados.
O investidor pode receber dividendos, reinvesti-los durante a fase de acumulação e, na aposentadoria, utilizá-los para custear parte das despesas. Quando os pagamentos forem insuficientes, pode complementar o orçamento com vendas planejadas. O importante é que a estratégia seja coerente com o risco, os impostos e a necessidade de renda.
Perguntas frequentes sobre dividendos
Dividendos são dinheiro grátis?
Não. Quando uma empresa distribui dividendos, transfere parte de seus recursos aos acionistas. Em condições equivalentes, o valor econômico da empresa diminui pelo montante distribuído. O acionista recebe dinheiro, mas não cria patrimônio adicional automaticamente.
É melhor viver de dividendos ou vender ações?
Depende do retorno total, dos impostos, da diversificação e da sustentabilidade das retiradas. Se duas carteiras oferecem os mesmos retornos e riscos, receber dividendos ou vender uma parcela equivalente dos investimentos pode produzir resultados econômicos semelhantes antes dos custos e impostos. Na prática, essas diferenças precisam ser avaliadas.
Reinvestir dividendos aumenta a rentabilidade?
Reinvestir permite manter o dinheiro aplicado e participar do crescimento futuro, favorecendo os juros compostos em comparação com gastar os valores recebidos. Isso, porém, não prova que empresas pagadoras de dividendos superem empresas que reinvestem os lucros de maneira eficiente.
É possível viver apenas de dividendos?
Sim, desde que os pagamentos líquidos sejam suficientes para financiar as despesas ao longo do tempo. Entretanto, os dividendos podem variar ou ser suspensos. Uma estratégia de aposentadoria que depende exclusivamente deles precisa considerar cortes, inflação, concentração de ativos e períodos prolongados de baixo retorno.
Qual é um bom dividend yield?
Não existe um percentual universalmente ideal. Um yield elevado pode representar uma oportunidade ou sinalizar que o mercado espera redução dos lucros e dos pagamentos. O indicador só faz sentido quando analisado junto da sustentabilidade financeira da empresa, das perspectivas de crescimento e do preço pago.
Conclusão: dividendos importam, mas não da maneira que muitos imaginam
Depois de tantos anos acompanhando o movimento FIRE, continuo entendendo o apelo dos dividendos. Existe uma satisfação real em abrir a conta da corretora e encontrar dinheiro recebido de empresas das quais somos sócios. Para muitos investidores, esse fluxo de caixa ajuda a manter a disciplina e torna a independência financeira mais concreta.
Mas precisamos tomar cuidado para não confundir satisfação com rentabilidade adicional.
O ChooseFI tem razão ao afirmar que os dividendos não são dinheiro grátis e que receber pagamentos em datas escolhidas pelas empresas reduz parte da nossa flexibilidade. Também está correto ao destacar que, dependendo da tributação, vender ativos pode ser mais eficiente.
Isso não torna os dividendos irrelevantes. Uma boa política de distribuição pode representar disciplina na alocação de capital, uma decisão racional diante da falta de projetos rentáveis e uma maneira conveniente de financiar despesas. Além disso, eles representam uma parcela expressiva do retorno histórico das ações.
O erro é transformar a política de dividendos em um critério mais importante do que a qualidade do negócio, seu preço e a capacidade de gerar riqueza ao longo dos anos.
Se uma empresa consegue investir meu dinheiro melhor do que eu, não me incomoda que retenha os lucros. Se não consegue, prefiro que distribua os recursos para que eu possa decidir onde aplicá-los.
E, quando chegar a hora de viver do patrimônio, também não vejo motivo para tratar a venda planejada de ações como um fracasso. Afinal, passei décadas acumulando investimentos justamente para que, em algum momento, eles pudessem financiar minha liberdade.
O objetivo do FIRE nunca foi morrer com o maior número possível de ações na carteira. Foi construir patrimônio suficiente para viver bem, com liberdade e segurança, pelo tempo necessário.
E você? Prefere receber dividendos regularmente ou vender pequenas parcelas da carteira quando precisa de dinheiro? A diferença pesa mais na matemática ou na sua tranquilidade como investidor?
Referências para aprofundamento
- S&P Dow Jones Indices — S&P 500 Dividend Aristocrats: The Importance of Stable Dividend Income (2025)
- Berkshire Hathaway — Carta de Warren Buffett aos acionistas de 2012, especialmente páginas 20 e 21
- Vanguard — Dividendos, reinvestimento e data ex-dividendo
- Receita Federal — Tributação de dividendos a partir de 2026
Artigo publicado originalmente em julho de 2018 e revisado em outubro de 2026 para incorporar novas evidências, exemplos e alterações tributárias.






Olá AA40,
Parabéns pelo post. Eu gosto dos dividendos pois só depender da rentabilidade é muito arriscado. Também não sou fã de ficar vendendo. Só vendo quando a empresa não atende mais os meus interesses.
Abraços.
Valeu Cowboy. Sim, investidor B&H não vende facilmente. Por isso é tão importante comprar boas e saudáveis empresas para não precisar trocá-las ao longo do caminho. Dividendos é como um incentivo e recompensa para quem faz B&H.Abcs
Na minha cabeça não faz sentido um investimento que não possui fluxo de caixa, nesse sentido os dividendos não são importantes e sim fundamentais.
Abraço!
Corey
Vai muito do estilo de cada investidor, mas eu também compartilho da ideia de que fluxo de caixa positivo e crescente é importante até para a empresa demonstrar sua saúde financeira aos acionistas. Abcs
Escolher excelentes empresas boas pagadoras de dividendos, a preços que garantam uma boa rentabilidade, é uma boa estrategia. A preferida de Luiz Barsi e Décio Bazin.
Abraço e bons investimentos.
Sim. Veja que eles começaram a fazer isso praticamente na infancia e sem uma montanha de dinheiro e agora no final da vida estao podres de rico…se ve que a estrategia funciona…
Só mesmo os dividendos para manter minha cabeça fria ao longo dessa crise que não acaba. Infelizmente viver de dividendos de ações é inviável devido a falta de regularidade nos pagamentos, não conheço ninguém que tenha como pilar da IF ações, já ti gente usando como base TD, FIIs, imóveis, etc… mas ações nunca. Só mesmo quem aposta na regra dos 4%….
Sr. IF365
Blog do Sr.IF365 | Acompanhe meus últimos 365 dias antes da IF e Aposentadoria Antecipada
http://www.srif365.com
Concordo se considerar apenas Brasil.
Você que gosta de FIIs, por que não dá uma estudada nuns FIIs nos EUA (REITS)? Tem o ETF de reits da Vanguard (VNQ) com yield de 4,35%aa em dolar ou ótimos reits como O, EPR, VTR, IRM, FRT, dentre outros baseado na sua estratégia do Brasil…veja bem que não é indicação de investimento, longe disso..apenas algo para vc estudar. abcs
Opa, muito bom o artigo, eu vejo como uma estrategia de garantia de depreciação,ou seja, reinvestir os dividendos como uma garantia que mesmo que uma ação cair 8% dentro de um ano, posso recomprar com o dividendo e até se ação cair vou ter mais unidades daquela ação comprando por um preço mais barato, de qualquer forma acho importante hahaha, abraços
Exato, a lógica é esta mesmo..se cair compro mais com Yield maior, se subir eu ganho os dividendos mais o ganho de capital…é ganha ganha se a empresa for realmente boa ! Abcs
AA40
já viu essa materia do professor Arthur Vieira de Moraes? Nele é comentado que apenas os super ricos tem condições de viver de dividendos.
Diz o estudo que o retorno médio dos dividendos e juros pagos no Brasil é de R$ 3,73%.
Pra viver de dividendos no Brasil teria que ter investido R$ 10 milhões, aí sim daria um retorno anual de R$ 373.000 ano. Se o pequeno investidor tem R$ 1 milhão em ações, vai receber R$ 37.300 por ano!
https://www.infomoney.com.br/onde-investir/acoes/noticia/5332734/investir-acoes-dividendos-para-viver-renda-nao-funciona-para-voce
Eu li esta reportagem KSPOV mas vc precisa ver em contexto. Uma coisa é investir 1 ou 10 milhões de uma só vez, outra coisa totalmente diferente é investir todo mes por anos e anos visando empresas de CRESCIMENTO de dividendo, pois neste caso temos Yield on Cost (dividendos pelo preço original pago) e isto é o que importa realmente. Supomos que vc compre uma acao hj e o DY é 3.73%, receberá $3.73 e vc pagou $100 o share. Ano the vem ela aumenta este valor pago para $4 mas vc pagou $100 então agora seu YOC é 4%…mais um trimestre ela aumenta para $5 …já seu YOC pula para 5%…em 20 anos ela vai estar pagando $12 por exemplo…seu rendimento pelo valor pago será de 12%aa, isso sem considerar apreciacao de capital se a empresa for boa. Vc terá um rendimento passivo de 12%aa para sempre e se a empresa for boa e nào cortar dividendos, isso só aumentará. Viu como é diferente investir tudo de uma vez e ir comprando aos poucos? Só tem um porém temos muito poucas empresas no Brasil com estas caracteristicas. Eu só faço investiments DGI nos EUA onde lá existem várias empresas que pagam dividendos sem parar por mais de 100 anos.
quer aprender mais sobre isso veja o blog do http://viverdedividendos.org/. Abcs