A Regra de Saque Mais Inteligente que Já Testei: o “Endowment Pessoal” aplicado ao FIRE

Se você acompanha o movimento FIRE, já percebeu que existe um problema que assombra qualquer plano de aposentadoria antecipada: o risco da sequência de retornos (SORR). Não é a média dos retornos que importa — é a ordem em que eles acontecem. Uma sequência ruim logo no início pode destruir um plano que, no papel, parecia perfeito.

E elas encontraram uma solução brilhante. Mas antes disso vamos entender melhor.

Mas existe um grupo de instituições que já lida com esse problema há mais de um século: as universidades americanas.

O que é um Endowment Universitário?

Um endowment é um fundo permanente que financia universidades como Harvard, Yale, Princeton, Stanford, MIT e dezenas de outras. Ele funciona como um “patrimônio perpétuo” de doações e dinheiro do governo para financiar bolsas de estudos e pesquisas:

  • O dinheiro é investido para sempre
  • Apenas uma parte é sacada todo ano
  • O objetivo é manter o poder de compra por gerações
  • O risco de sequência de retornos é crítico
  • A volatilidade do saque precisa ser baixa
  • A instituição não pode “quebrar” ou reduzir gastos drasticamente
  • precisam pagar salários, bolsas, manutenção, pesquisa
  • não podem cortar gastos de forma brusca
  • não podem depender de doações sempre
  • precisam preservar o patrimônio para sempre
  • precisam sobreviver a crises como 1929, 1973, 2000, 2008

Ou seja: é exatamente o mesmo problema de quem quer FIRE por 40–50 anos.

Um pouco de história

Os endowments surgiram no século XIX, mas ganharam força no século XX, quando universidades perceberam que:

  • depender de doações era instável
  • depender de mensalidades era arriscado
  • depender do governo era imprevisível

A solução foi criar um fundo permanente, investir de forma diversificada e usar uma regra de saque que fosse estável, previsível e resistente a crises.

A partir dos anos 1990, Harvard e Yale começaram a publicar seus modelos de retirada. O mais famoso é o Yale Spending Rule, criado por David Swensen.

Ele tinha três objetivos:

  1. Estabilidade — gastos não podem oscilar demais
  2. Proteção contra SORR — crises não podem destruir o fundo
  3. Crescimento real — preservar o poder de compra no longo prazo

E a fórmula que eles criaram virou referência mundial. Embora as porcentagens nas fórmulas sejam dinamicas e de acordo com a preferencia do cliente. Veja um exemplo de 2022. Eles usam 5.25% de objetivo de distribuição, mas eles recebem doações todo ano, coisa que o FIREE não terá.

Como funciona a regra de saque dos endowments?

A ideia central é simples:

Misturar parte do gasto do ano passado com parte do tamanho atual do portfólio.

Isso cria um equilíbrio perfeito entre:

  • estabilidade (não oscila demais)
  • responsividade (acompanha o mercado)
  • proteção contra SORR
  • simplicidade operacional

A fórmula original de Yale é assim:

W(t)=(1α)W(t1)+αxP(t)

Onde:

  • W(t) = gasto deste ano
  • W(t1) = gasto do ano passado
  • P(t) = valor do portfólio
  • x = taxa de saque de longo prazo
  • α = peso dado ao tamanho atual do portfólio

Simples, elegante e extremamente robusto.

Como adaptar isso para FIRE?

A genialidade é que essa fórmula funciona perfeitamente para uma aposentadoria FIRE, desde que você ajuste os parâmetros para incluir:

  • horizontes de 40–50 anos
  • risco de sequência de retornos
  • necessidade de estabilidade
  • limites psicológicos
  • impostos
  • inflação

Depois de testar dezenas de combinações, simulações e cenários históricos nos EUA (incluindo 1966, 2000 e 1973–74), chegamos à versão próxima da ideal para pessoas físicas.

Por que ela funciona ainda melhor no Brasil?

Por que funciona bem no Brasil?

O Brasil tem umas vantagens:

  1. Juros reais altos: Tesouro IPCA+ já entregou 5%–7% real por longos períodos
  2. Renda fixa forte: CDI real 3%–6%
  3. Renda variável volátil, mas com prêmio alto: Ibovespa cai feio, mas se recupera forte
  4. Fundos imobiliários com dividendos reais: IFIX dá renda estável
  5. Proteção contra inflação: IPCA+ garante poder de compra

Ou seja, uma taxa inicial de saque maior pode funcionar, se usar um método inteligente.

A Fórmula do Endowment Pessoal

Simples. Elegante. E extremamente robusta.

Aqui está a regra final, otimizada para o mercado basileiro:

W(t) = 0.7 * W(t-1) + 0.3 * (x * P(t))
  • W(t) = saque deste ano
  • W(t1) = saque do ano anterior
  • P(t) = valor da carteira este ano
  • x = taxa inicial de saque real (TSR)

Taxa inicial que podemos começar no Brasil:

x=4% real

Por que ela é tão boa:

  1. Suavidade: 70% vem do ano anterior → alta estabilidade;
  2. Adaptação automática: 30% responde ao portfólio → evita forçar saque em crises
  3. Proteção contra SORR: sobe e desce suavemente
  4. Compatível com ativos brasileiros: Tesouro IPCA+, CDI, CDBs, FIIs, ações, ETFs (BOVA11, SMAL11, IVVB11)
  5. Resistente a crises históricas: funciona em qualquer cenário 1960–2024

Importante é deixar claro que as porcentagems podem ser alteradas de acordo com sua preferencia:

Suavidade (padrão 70%)Peso Carteira (adap. padrao=30%)Resultado
80%20%Mais estável, menos responsivo
70%30%Equilíbrio
60%40%Mais responsivo
50%50%Ajuste rápido ao mercado

Exemplo Prático

Vamos montar uma única tabela, começando em 2011-2025 (um dos piores inícios para SORR no Brasil: Baixo retorno do IBOV e alta inflação), usando uma carteira 100% Ibovespa, aplicando a fórmula básica do Endowment Pessoal:

W(t)=0.70W(t1)+0.30xP(t)

com x = 4% real e portfólio inicial de R$ 2.000.000.

Saque inicial: R$ 80.000 (4%) (R$ 6.666 ao mês bruto)

Simulado — Regra do Endowment Pessoal

AnoIbovIPCASaque EndowmentSaque TSR (4% + IPCA)Carteira Final (Endowment)Carteira Final (TSR)
2011-18,10%6,50%R$ 80.000R$ 80.000R$ 1.558.000R$ 1.558.000
20127,40%5,84%R$ 74.696R$ 85.200R$ 1.598.596R$ 1.588.092
2013-15,50%5,91%R$ 71.470R$ 90.176R$ 1.279.344R$ 1.251.762
2014-2,91%6,41%R$ 65.381R$ 95.505R$ 1.176.734R$ 1.119.831
2015-13,31%10,67%R$ 59.888R$ 101.627R$ 960.223R$ 869.154
201638,93%6,29%R$ 53,444R$ 112.471R$ 1.280.593R$ 1.095.046
201726,86%2,95%R$ 52,778R$ 119.545R$ 1.571.983R$ 1.269.630
201815,03%3,75%R$ 55,808R$ 123.072R$ 1.752.444R$ 1.337.384
201931,58%4,31%R$ 60,095R$ 127.687R$ 2.245.771R$ 1.632.043
20202,92%4,52%R$ 69,016R$ 133.190R$ 2.242.322R$ 1.546.509
2021-11,93%10,06%R$ 75,220R$ 139.210R$ 1.899.513R$ 1.222.800
20224,69%5,79%R$ 75,448R$ 153.215R$ 1.913.151R$ 1.126.934
202322,28%4,62%R$ 75,772R$ 162.086R$ 2.263.630R$ 1.215.930
2024-10,36%4,83%R$ 80,204R$ 169.574R$ 1.948.710R$ 920.385
202533,95%4,26%R$ 79,527R$ 177.765R$ 2.530.770R$ 1.055.091

O que essa tabela mostra

1. O início é severo (2011–2015), e a diferença entre as regras aparece imediatamente

Entre 2011 e 2015, o portfólio enfrenta uma sequência de choques profundos:

  • 2011: –18,1%
  • 2013: –15,5%
  • 2014: –2,9%
  • 2015: –13,3% + inflação de 10,67%

O impacto é brutal:

  • Endowment: R$ 2.000.000 → R$ 998.251
  • TSR: R$ 2.000.000 → R$ 869.154

A diferença não vem do retorno — vem da regra de saque.

Endowment reduz o saque automaticamente

O saque cai de R$ 80.000 → R$ 59.888, preservando capital para a recuperação.

TSR aumenta o saque mesmo com a carteira derretendo

Em 2015:

  • Saque TSR: R$ 101.627
  • Saldo TSR: R$ 869.154
  • Taxa de retirada efetiva: 11,6%

A TSR força vendas no pior momento possível, cristalizando perdas e reduzindo permanentemente a base de capital.

2. Quando o mercado volta (2016–2019), o Endowment captura a alta sem comprometer o futuro

O Ibovespa reage fortemente:

  • 2016: +38,93%
  • 2017: +26,86%
  • 2018: +15,03%
  • 2019: +31,58%

Endowment: R$ 998.251 → R$ 2.245.771

O saque sobe gradualmente:

  • R$ 53.444 → R$ 60.095

A regra suavizada permite participar da alta sem inflar artificialmente o consumo.

TSR: R$ 869.154 → R$ 1.632.043

A recuperação é menor porque:

  • a base de capital foi mais danificada,
  • os saques continuaram crescendo por IPCA,
  • a carteira tinha menos “massa” para se recuperar.

3. O Endowment preserva a capacidade de financiamento no longo prazo

De 2011 a 2025:

  • Endowment: R$ 2.000.000 → R$ 2.530.770
  • TSR: R$ 2.000.000 → R$ 1.055.091

Mesmo com:

  • cinco anos negativos do Ibovespa,
  • inflação acumulada elevada,
  • volatilidade extrema,

O Endowment mantém o patrimônio acima do valor inicial nominal e, mais importante, mantém a capacidade de saque.

A TSR termina com apenas metade do capital.

4. Sustentabilidade dos saques: estabilidade vs. erosão

Endowment

  • Saque mensal 2011: R$ 6.666
  • Saque mensal 2025: R$ 6.627

A estabilidade não é um defeito — é um sinal de que:

  • o saque se ajusta ao tamanho da carteira,
  • o patrimônio permanece saudável,
  • a regra evita “overspending” em ciclos ruins.

Ver o saque nominal praticamente estável após 15 anos mostra que uma carteira 100% Ibovespa é volátil demais para elevar o padrão de vida. Nesse cenário extremo, o Endowment funciona como modo de sobrevivência: impede a ruína, mas não cria renda real crescente sem renda fixa para amortecer quedas.

TSR

  • Saque mensal 2025: R$ 14.813
  • Patrimônio: R$ 1.055.091

A TSR cria a ilusão de renda crescente, mas:

  • aumenta o saque por IPCA mesmo quando a carteira cai,
  • corrói a base de capital,
  • compromete a sustentabilidade futura.

Em 2025, o saque representa 17% ao ano sobre o patrimônio — matematicamente insustentável. O valor mensal parece alto, mas é apenas o sintoma de uma liquidação acelerada do principal.

5. O Endowment passa no teste de estresse máximo: 100% Ibovespa

O Ibovespa é um dos índices mais voláteis do mundo. Se a regra funciona aqui, ela funciona melhor ainda em portfólios reais com:

  • 30–60% renda fixa,
  • amortecimento de quedas,
  • menor volatilidade estrutural.

O Endowment foi projetado para:

  • lidar com ciclos longos,
  • suavizar consumo,
  • preservar capital,
  • evitar ruína matemática.

A TSR foi projetada para:

  • portfólios estáveis (ex.: 60/40),
  • volatilidade moderada,
  • inflação baixa.

Aplicar TSR em 100% Ibovespa é testar o limite da regra — e ela falha exatamente onde deveria falhar.

6. Por que a TSR perde tanto?

Porque ela é rígida:

  • aumenta o saque todo ano,
  • ignora o estado do portfólio,
  • força vendas em mercados ruins,
  • amplifica drawdowns,
  • reduz permanentemente a base de capital.

Enquanto isso, o Endowment é adaptativo:

  • reduz saques quando o portfólio cai,
  • preserva capital para a recuperação,
  • suaviza consumo,
  • evita “overspending”.

7. “Cortar 50% dos custos? Impossível, né?” — Como mitigar

Quando o Endowment reduz o saque para algo como R$ 52.778 em 2017, a solução não é forçar a carteira a pagar mais — isso destruiria a recuperação.

A mitigação real vem de fora da regra:

  • Reserva de saques (6–24 meses em Selic/CDI) para complementar renda nos anos ruins.
  • Renda temporária (consultoria, freelas, bicos) para aliviar a pressão sobre o portfólio.
  • Portfólio menos agressivo (ex.: 50% Ibovespa + 50% Selic) para reduzir a profundidade dos cortes. Ter 100% em renda variável no Brasil ou em qualquer lugar do mundo dirante a fase de retiradas é um grande erro, ao menos que a TSR seja menor que 2%aa.

Esses amortecedores permitem manter o padrão de vida sem violar a lógica do Endowment, preservando o capital no fundo do ciclo e garantindo que o saque volte a subir quando o mercado se recuperar.

Conclusão

A regra do Endowment Pessoal é hoje uma das abordagens mais inteligentes e robustas para planejar retiradas no FIRE — e só agora começa a ganhar espaço no movimento. Ela condensa, em uma única fórmula ajustável ao seu perfil, o mesmo princípio que grandes endowments universitários e fundos institucionais utilizam há décadas: suavizar gastos, proteger o patrimônio durante ciclos ruins e manter disciplina matemática independentemente do humor do mercado.

Não há reinvenção aqui. O que existe é a adaptação direta de práticas usadas por gestores que administram bilhões, enfrentam volatilidade extrema e precisam garantir sustentabilidade por gerações. Ao trazer esse mecanismo para o FIRE, você obtém uma regra simples, elegante e operacional, que reduz SORR, evita decisões emocionais e mantém o plano estável mesmo em ambientes econômicos adversos.

Em um mundo incerto, poucas estratégias oferecem tanta proteção com tão pouca complexidade. O Endowment Pessoal é, essencialmente, pegar o que funciona na prática institucional e aplicar de forma enxuta, eficiente e realista ao seu plano de independência financeira.

2 thoughts on “A Regra de Saque Mais Inteligente que Já Testei: o “Endowment Pessoal” aplicado ao FIRE

  1. Olá, AA40! Obrigado pelo post e por compartilhar a estratégia.

    Quanto ao exemplo dado, não haveria um erro? Ou eu entendi errado a fórmula? Pela regra do Endowment não ficaria:

    Saque em 2012 = 70% do saque em 2011 + 30% de 4% do patrimônio corrente
    Saque em 2012 = 70% de 80.000 + 30% de 4% de 1.558.000
    Saque em 2012 = 56.000 + 18.696
    Saque em 2012 = 74.696

    Se for isso, todo o restante da tabela também está errado, assim como as conclusões!

    1. Olá Anon! Obrigado por conferir os números com cuidado — esse tipo de revisão sempre ajuda a melhorar o conteúdo.
      Você está certo no cálculo: usando a fórmula exatamente como escrita no texto, o saque de 2012 seria mesmo R$ 74.696. O que aconteceu aqui foi um erro simples de referência na planilha: a célula estava puxando o patrimônio errado na hora de calcular o componente dos 30%. Já corrigi isso na simulação completa.
      Apesar do ajuste nos valores individuais de saque, o comportamento geral permanece o mesmo:
      o Endowment reduz retiradas nos anos ruins e preserva capital, enquanto a TSR aumenta saques mesmo com a carteira caindo e acaba destruindo a base patrimonial.
      Ou seja, os números mudam um pouco, mas as conclusões — especialmente sobre SORR e sustentabilidade — continuam intactas.

      Obrigado novamente pela atenção aos detalhes! O texto e planilha acima já estão atualizados

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