A Regra de Saque Mais Inteligente que Já Testei: o “Endowment Pessoal” aplicado ao FIRE

Se você acompanha o movimento FIRE, já percebeu que existe um problema que assombra qualquer plano de aposentadoria antecipada: o risco da sequência de retornos (SORR). Não é a média dos retornos que importa — é a ordem em que eles acontecem. Uma sequência ruim logo no início pode destruir um plano que, no papel, parecia perfeito.

Mas existe um grupo de instituições que já lida com esse problema há mais de um século: as universidades americanas.

E elas encontraram uma solução brilhante: O endowment. Mas antes disso vamos entender melhor.

O que é um Endowment Universitário?

Um endowment é um fundo permanente que financia universidades como Harvard, Yale, Princeton, Stanford, MIT e dezenas de outras. Ele funciona como um “patrimônio perpétuo” de doações e dinheiro do governo para financiar bolsas de estudos e pesquisas:

  • O dinheiro é investido para sempre
  • Apenas uma parte é sacada todo ano
  • O objetivo é manter o poder de compra por gerações
  • O risco de sequência de retornos é crítico
  • A volatilidade do saque precisa ser baixa
  • A instituição não pode “quebrar” ou reduzir gastos drasticamente
  • precisam pagar salários, bolsas, manutenção, pesquisa
  • não podem cortar gastos de forma brusca
  • não podem depender de doações sempre
  • precisam preservar o patrimônio para sempre
  • precisam sobreviver a crises como 1929, 1973, 2000, 2008

Ou seja: é exatamente o mesmo problema de quem quer FIRE por 40–50 anos.

Um pouco de história

Os endowments surgiram no século XIX, mas ganharam força no século XX, quando universidades perceberam que:

  • depender de doações era instável
  • depender de mensalidades era arriscado
  • depender do governo era imprevisível

A solução foi criar um fundo permanente, investir de forma diversificada e usar uma regra de saque que fosse estável, previsível e resistente a crises.

A partir dos anos 1990, Harvard e Yale começaram a publicar seus modelos de retirada. O mais famoso é o Yale Spending Rule, criado por David Swensen.

Ele tinha três objetivos:

  1. Estabilidade — gastos não podem oscilar demais
  2. Proteção contra SORR — crises não podem destruir o fundo
  3. Crescimento real — preservar o poder de compra no longo prazo

E a fórmula que eles criaram virou referência mundial. Embora as porcentagens nas fórmulas sejam dinamicas e de acordo com a preferencia do cliente. Veja um exemplo de 2022. Eles usam 5.25% de objetivo de distribuição, mas eles recebem doações todo ano, coisa que o FIREE não terá.

Como funciona a regra de saque dos endowments?

A ideia central é simples:

Misturar parte do gasto do ano passado com parte do tamanho atual do portfólio.

Isso cria um equilíbrio perfeito entre:

  • estabilidade (não oscila demais)
  • responsividade (acompanha o mercado)
  • proteção contra SORR
  • simplicidade operacional

A fórmula original de Yale é assim:

W(t)=(1α)W(t1)+αxP(t)

Onde:

  • W(t) = gasto deste ano
  • W(t1) = gasto do ano passado
  • P(t) = valor do portfólio
  • x = taxa de saque de longo prazo
  • α = peso dado ao tamanho atual do portfólio

Simples, elegante e extremamente robusto.

Como adaptar isso para FIRE?

A genialidade é que essa fórmula funciona perfeitamente para uma aposentadoria FIRE, desde que você ajuste os parâmetros para incluir:

  • horizontes de 40–50 anos
  • risco de sequência de retornos
  • necessidade de estabilidade
  • limites psicológicos
  • impostos
  • inflação

Depois de testar dezenas de combinações, simulações e cenários históricos nos EUA (incluindo 1966, 2000 e 1973–74), chegamos à versão próxima da ideal para pessoas físicas.

Por que ela funciona ainda melhor no Brasil?

Por que funciona bem no Brasil?

O Brasil tem umas vantagens:

  1. Juros reais altos: Tesouro IPCA+ já entregou 5%–7% real por longos períodos
  2. Renda fixa forte: CDI real 3%–6%
  3. Renda variável volátil, mas com prêmio alto: Ibovespa cai feio, mas se recupera forte
  4. Fundos imobiliários com dividendos reais: IFIX dá renda estável
  5. Proteção contra inflação: IPCA+ garante poder de compra

Ou seja, uma taxa inicial de saque maior pode funcionar, se usar um método inteligente.

A Fórmula do Endowment Pessoal

Simples. Elegante. E extremamente robusta.

Aqui está a regra final, otimizada para o mercado basileiro:

W(t) = 0.7 * W(t-1) + 0.3 * (x * P(t))
  • W(t) = saque deste ano
  • W(t1) = saque do ano anterior
  • P(t) = valor da carteira este ano
  • x = taxa inicial de saque real (TSR)

Taxa inicial que podemos começar no Brasil:

x=4% real

Por que ela é tão boa:

  1. Suavidade: 70% vem do ano anterior → alta estabilidade;
  2. Adaptação automática: 30% responde ao portfólio → evita forçar saque em crises
  3. Proteção contra SORR: sobe e desce suavemente
  4. Compatível com ativos brasileiros: Tesouro IPCA+, CDI, CDBs, FIIs, ações, ETFs (BOVA11, SMAL11, IVVB11)
  5. Resistente a crises históricas: funciona em qualquer cenário 1960–2024

Importante é deixar claro que as porcentagems podem ser alteradas de acordo com sua preferencia:

Suavidade (padrão 70%)Peso Carteira (adap. padrao=30%)Resultado
80%20%Mais estável, menos responsivo
70%30%Equilíbrio
60%40%Mais responsivo
50%50%Ajuste rápido ao mercado

Exemplo Prático

Vamos montar uma única tabela, começando em 2011-2025 (um dos piores inícios para SORR no Brasil: Baixo retorno do IBOV e alta inflação), usando uma carteira 100% Ibovespa, aplicando a fórmula básica do Endowment Pessoal:

W(t)=0.70W(t1)+0.30xP(t)

com x = 4% real e portfólio inicial de R$ 2.000.000.

Saque inicial: R$ 80.000 (4%) (R$ 6.666 ao mês bruto)

Simulado — Regra do Endowment Pessoal

AnoIbovIPCASaque EndowmentSaque TSR (4% + IPCA)Carteira Final (Endowment)Carteira Final (TSR)
2011-18,10%6,50%R$ 80.000R$ 80.000R$ 1.558.000R$ 1.558.000
20127,40%5,84%R$ 74.696R$ 85.200R$ 1.598.596R$ 1.588.092
2013-15,50%5,91%R$ 71.470R$ 90.176R$ 1.279.344R$ 1.251.762
2014-2,91%6,41%R$ 65.381R$ 95.505R$ 1.176.734R$ 1.119.831
2015-13,31%10,67%R$ 59.888R$ 101.627R$ 960.223R$ 869.154
201638,93%6,29%R$ 53,444R$ 112.471R$ 1.280.593R$ 1.095.046
201726,86%2,95%R$ 52,778R$ 119.545R$ 1.571.983R$ 1.269.630
201815,03%3,75%R$ 55,808R$ 123.072R$ 1.752.444R$ 1.337.384
201931,58%4,31%R$ 60,095R$ 127.687R$ 2.245.771R$ 1.632.043
20202,92%4,52%R$ 69,016R$ 133.190R$ 2.242.322R$ 1.546.509
2021-11,93%10,06%R$ 75,220R$ 139.210R$ 1.899.513R$ 1.222.800
20224,69%5,79%R$ 75,448R$ 153.215R$ 1.913.151R$ 1.126.934
202322,28%4,62%R$ 75,772R$ 162.086R$ 2.263.630R$ 1.215.930
2024-10,36%4,83%R$ 80,204R$ 169.574R$ 1.948.710R$ 920.385
202533,95%4,26%R$ 79,527R$ 177.765R$ 2.530.770R$ 1.055.091

O que essa tabela mostra

1. O início é severo (2011–2015), e a diferença entre as regras aparece imediatamente

Entre 2011 e 2015, o portfólio enfrenta uma sequência de choques profundos:

  • 2011: –18,1%
  • 2013: –15,5%
  • 2014: –2,9%
  • 2015: –13,3% + inflação de 10,67%

O impacto é brutal:

  • Endowment: R$ 2.000.000 → R$ 998.251
  • TSR: R$ 2.000.000 → R$ 869.154

A diferença não vem do retorno — vem da regra de saque.

Endowment reduz o saque automaticamente

O saque cai de R$ 80.000 → R$ 59.888, preservando capital para a recuperação.

TSR aumenta o saque mesmo com a carteira derretendo

Em 2015:

  • Saque TSR: R$ 101.627
  • Saldo TSR: R$ 869.154
  • Taxa de retirada efetiva: 11,6%

A TSR força vendas no pior momento possível, cristalizando perdas e reduzindo permanentemente a base de capital.

2. Quando o mercado volta (2016–2019), o Endowment captura a alta sem comprometer o futuro

O Ibovespa reage fortemente:

  • 2016: +38,93%
  • 2017: +26,86%
  • 2018: +15,03%
  • 2019: +31,58%

Endowment: R$ 998.251 → R$ 2.245.771

O saque sobe gradualmente:

  • R$ 53.444 → R$ 60.095

A regra suavizada permite participar da alta sem inflar artificialmente o consumo.

TSR: R$ 869.154 → R$ 1.632.043

A recuperação é menor porque:

  • a base de capital foi mais danificada,
  • os saques continuaram crescendo por IPCA,
  • a carteira tinha menos “massa” para se recuperar.

3. O Endowment preserva a capacidade de financiamento no longo prazo

De 2011 a 2025:

  • Endowment: R$ 2.000.000 → R$ 2.530.770
  • TSR: R$ 2.000.000 → R$ 1.055.091

Mesmo com:

  • cinco anos negativos do Ibovespa,
  • inflação acumulada elevada,
  • volatilidade extrema,

O Endowment mantém o patrimônio acima do valor inicial nominal e, mais importante, mantém a capacidade de saque.

A TSR termina com apenas metade do capital.

4. Sustentabilidade dos saques: estabilidade vs. erosão

Endowment

  • Saque mensal 2011: R$ 6.666
  • Saque mensal 2025: R$ 6.627

A estabilidade não é um defeito — é um sinal de que:

  • o saque se ajusta ao tamanho da carteira,
  • o patrimônio permanece saudável,
  • a regra evita “overspending” em ciclos ruins.

Ver o saque nominal praticamente estável após 15 anos mostra que uma carteira 100% Ibovespa é volátil demais para elevar o padrão de vida. Nesse cenário extremo, o Endowment funciona como modo de sobrevivência: impede a ruína, mas não cria renda real crescente sem renda fixa para amortecer quedas.

TSR

  • Saque mensal 2025: R$ 14.813
  • Patrimônio: R$ 1.055.091

A TSR cria a ilusão de renda crescente, mas:

  • aumenta o saque por IPCA mesmo quando a carteira cai,
  • corrói a base de capital,
  • compromete a sustentabilidade futura.

Em 2025, o saque representa 17% ao ano sobre o patrimônio — matematicamente insustentável. O valor mensal parece alto, mas é apenas o sintoma de uma liquidação acelerada do principal.

5. O Endowment passa no teste de estresse máximo: 100% Ibovespa

O Ibovespa é um dos índices mais voláteis do mundo. Se a regra funciona aqui, ela funciona melhor ainda em portfólios reais com:

  • 30–60% renda fixa,
  • amortecimento de quedas,
  • menor volatilidade estrutural.

O Endowment foi projetado para:

  • lidar com ciclos longos,
  • suavizar consumo,
  • preservar capital,
  • evitar ruína matemática.

A TSR foi projetada para:

  • portfólios estáveis (ex.: 60/40),
  • volatilidade moderada,
  • inflação baixa.

Aplicar TSR em 100% Ibovespa é testar o limite da regra — e ela falha exatamente onde deveria falhar.

6. Por que a TSR perde tanto?

Porque ela é rígida:

  • aumenta o saque todo ano,
  • ignora o estado do portfólio,
  • força vendas em mercados ruins,
  • amplifica drawdowns,
  • reduz permanentemente a base de capital.

Enquanto isso, o Endowment é adaptativo:

  • reduz saques quando o portfólio cai,
  • preserva capital para a recuperação,
  • suaviza consumo,
  • evita “overspending”.

7. “Cortar 50% dos custos? Impossível, né?” — Como mitigar

Quando o Endowment reduz o saque para algo como R$ 52.778 em 2017, a solução não é forçar a carteira a pagar mais — isso destruiria a recuperação.

A mitigação real vem de fora da regra:

  • Reserva de saques (6–24 meses em Selic/CDI) para complementar renda nos anos ruins.
  • Renda temporária (consultoria, freelas, bicos) para aliviar a pressão sobre o portfólio.
  • Portfólio menos agressivo (ex.: 50% Ibovespa + 50% Selic) para reduzir a profundidade dos cortes. Ter 100% em renda variável no Brasil ou em qualquer lugar do mundo dirante a fase de retiradas é um grande erro, ao menos que a TSR seja menor que 2%aa.

Esses amortecedores permitem manter o padrão de vida sem violar a lógica do Endowment, preservando o capital no fundo do ciclo e garantindo que o saque volte a subir quando o mercado se recuperar.

NERD? Dá pra deixar muito mais engenhoso (e complicado)

Podemos criar uma regra híbrida com CAPE(Cyclically Adjusted Price-to-Earnings ratio- é um indicador de valuation criado por Robert Shiller, que mede o preço de mercado de ações em relação à média dos lucros ajustados pela inflação dos últimos 10 anos; que nós exclusivamente calculamos para o IBOV) Isto é uma evolução do modelo de Endowment pessoal, trazendo sensibilidade macroeconômica para o planejamento de retiradas no FIRE. Em vez de um parâmetro de saque fixo ou suavizado linearmente, ela ajusta dinamicamente o fator de suavização ααα com base em dois sinais: o valuation do mercado, medido pela razão CAPE/mediana histórica, e o estado do portfólio, refletido em seu drawdown. A ideia é simples na teoria: quando o mercado está caro ou o portfólio sofreu quedas, diminui-se ααα para tornar os saques mais estáveis; quando o mercado está barato e o portfólio saudável, aumenta-se ααα para capturar melhor o crescimento. Essa combinação cria um mecanismo que reage ao ambiente sem sacrificar previsibilidade, mantendo o gasto dentro de limites realistas ao longo de décadas.

Imagine que você começou seu FIRE com R$2.000.000. No primeiro ano, o mercado está caro (CAPE alto) e seu portfólio está saudável, sem perdas recentes. A regra híbrida reduz α levemente, tornando o saque mais conservador — você retira menos do que o máximo permitido para não arriscar seu capital se o mercado corrigir nos próximos anos.

Alguns anos depois, o CAPE cai (mercado barato) e o portfólio sofreu uma queda de 20%. Agora, a regra aumenta α, permitindo que você retire um pouco mais nos anos seguintes, aproveitando a recuperação sem comprometer o padrão de vida. Os guardrails de ±10% garantem que os saques nunca oscilem demais, equilibrando proteção contra perdas, captura de oportunidades e estabilidade ao longo de décadas.

Exemplo de formula (para os ainda mais nerds)

Saque anual:

W(t) = (1 - α(t)) * W(t-1) + α(t) * s * P(t)

Suavização dinâmica:

α(t) = α0 * (1 / v(t)) * d(t)

Ajuste por CAPE:

v(t) = CAPE(t) / CAPE_mediana

Ajuste por drawdown:

d(t) = ( P(t) / P_peak ) ^ γ

Guardrails (limites de variação anual):

W(t) ∈ [0.90 * W(t-1), 1.10 * W(t-1)]

Legenda:

  • W(t) = saque no ano t
  • W(t-1) = saque do ano anterior
  • P(t) = valor do portfólio no ano t
  • s = taxa-alvo de retirada (ex.: 5%)
  • α(t) = parâmetro de suavização ajustado pelo CAPE e drawdown
  • α0 = α base (ex.: 0,2–0,3)
  • CAPE(t) = CAPE no ano t
  • CAPE_mediana = mediana histórica do CAPE
  • P_peak = maior valor do portfólio até o ano t
  • γ = sensibilidade ao drawdown (ex.: 2–3)

Conclusão

A regra do Endowment Pessoal é hoje uma das abordagens mais inteligentes e robustas para planejar retiradas no FIRE — e só agora começa a ganhar espaço no movimento. Ela condensa, em uma única fórmula ajustável ao seu perfil, o mesmo princípio que grandes endowments universitários e fundos institucionais utilizam há décadas: suavizar gastos, proteger o patrimônio durante ciclos ruins e manter disciplina matemática independentemente do humor do mercado.

Não há reinvenção aqui. O que existe é a adaptação direta de práticas usadas por gestores que administram bilhões, enfrentam volatilidade extrema e precisam garantir sustentabilidade por gerações. Ao trazer esse mecanismo para o FIRE, você obtém uma regra simples, elegante e operacional, que reduz SORR, evita decisões emocionais e mantém o plano estável mesmo em ambientes econômicos adversos.

Em um mundo incerto, poucas estratégias oferecem tanta proteção com tão pouca complexidade. O Endowment Pessoal é, essencialmente, pegar o que funciona na prática institucional e aplicar de forma enxuta, eficiente e realista ao seu plano de independência financeira.

14 thoughts on “A Regra de Saque Mais Inteligente que Já Testei: o “Endowment Pessoal” aplicado ao FIRE

  1. Olá, AA40! Obrigado pelo post e por compartilhar a estratégia.

    Quanto ao exemplo dado, não haveria um erro? Ou eu entendi errado a fórmula? Pela regra do Endowment não ficaria:

    Saque em 2012 = 70% do saque em 2011 + 30% de 4% do patrimônio corrente
    Saque em 2012 = 70% de 80.000 + 30% de 4% de 1.558.000
    Saque em 2012 = 56.000 + 18.696
    Saque em 2012 = 74.696

    Se for isso, todo o restante da tabela também está errado, assim como as conclusões!

    1. Olá Anon! Obrigado por conferir os números com cuidado — esse tipo de revisão sempre ajuda a melhorar o conteúdo.
      Você está certo no cálculo: usando a fórmula exatamente como escrita no texto, o saque de 2012 seria mesmo R$ 74.696. O que aconteceu aqui foi um erro simples de referência na planilha: a célula estava puxando o patrimônio errado na hora de calcular o componente dos 30%. Já corrigi isso na simulação completa.
      Apesar do ajuste nos valores individuais de saque, o comportamento geral permanece o mesmo:
      o Endowment reduz retiradas nos anos ruins e preserva capital, enquanto a TSR aumenta saques mesmo com a carteira caindo e acaba destruindo a base patrimonial.
      Ou seja, os números mudam um pouco, mas as conclusões — especialmente sobre SORR e sustentabilidade — continuam intactas.

      Obrigado novamente pela atenção aos detalhes! O texto e planilha acima já estão atualizados

  2. Para variar, excelente artigo! Proposição muito interessante. Apenas como sugestão de próximo artigo: apresentar os cálculos para uma carteira 90% renda fixa e 10% renda variável, com TST de 5%, como parte importante da comunidade deve ter no Brasil.

    1. Boa sugestão Arnaldo, mas antecipo que não muda muita coisa estruturalmente e a diferença entre TSR e o Endowment é muito menor— e os números ajudam a ver isso.

      Numa carteira 90% renda fixa + 10% renda variável, supondo retorno real médio de 5% a 6% ao ano (compatível com histórico brasileiro de juros reais elevados), uma TST de 5% já consome praticamente todo o retorno esperado. Se a carteira rende 5,5% real e você saca 5%, o crescimento estrutural do patrimônio é só 0,5% real antes de volatilidade — margem pequena.

      Aplicando o Endowment Pessoal (70% do saque anterior + 30% de 5% do patrimônio atual), a diferença em relação à regra percentual pura é basicamente suavização. Exemplo simples: patrimônio de R$ 2.000.000, TST 5% → saque inicial R$ 100.000. Se no ano seguinte o patrimônio cai para R$ 1.800.000, 5% daria R$ 90.000; pela regra 70/30 o saque iria para cerca de R$ 97.000 — cai menos, mas ainda ajusta. No longo prazo, porém, o fator determinante continua sendo o retorno real da carteira menos a taxa de saque.

      Ou seja: com 90/10 e TST de 5%, a segurança depende muito mais do diferencial entre retorno real e saque do que do método de suavização. A regra melhora o caminho da renda, mas não altera a matemática de fundo.

  3. Mais um excelente artigo. Mais segurança para o período FIRE.

    Esse método de retirada me lembrou, guardadas as proporções, o método de retirada adotado pelo André, do viagem lenta, uma vez que aqui 70% da retirada está atrelado ao valor do ano anterior.

    Valeu,

    1. Legal Aprendiz. Me parece que o André adota uma retirada percentual direta sobre o patrimônio do ano anterior;
      – Método do André: simples, reage rápido, renda mais volátil.
      – Endowment 70/30: mais sofisticado, reage mais devagar, renda mais estável e pode ser adaptado para qualquer gosto.

      A matemática de longo prazo é parecida; o que muda é o caminho da renda ao longo dos anos.

  4. Olá, AA40.
    Muito grato pelo post.
    Sou aposentado e ajuda muito no planejamento das retiradas mensais.
    Seria possível fazer uma simulação com a TPR do Brasil?
    Conforme esperado, a TSR não só não corrige o patrimônio inicial pela inflação como o saldo fica em 50% do mesmo.
    Como a TPR se propõe a corrigir o PL final pelo IPCA, seria importante ver se isto realmente ocorre.
    Abraço, João.

    1. Oi João, obrigado pelo comentário. Na verdade, o Endowment Pessoal não se propõe a preservar o patrimônio final corrigido pelo IPCA como a TPR (Assumo ser Taxa Perpetua de retidada) — ele é uma regra de saque suavizada, que combina parte do saque anterior com parte de um percentual do patrimônio atual, visando estabilidade da renda ao longo do tempo, não manutenção do principal em termos reais. Por isso, uma simulação de Endowment não garante que o patrimônio final ficará corrigido pela inflação; se o objetivo é preservar o capital em termos reais, o caminho correto é usar uma TPR ajustada ao IPCA, que só retira o excedente sustentável e mantém o patrimônio protegido. Ou seja, o x na fórmula é que precisa ser escolhido conservadoramente para que o saque convirja para este percentual. SaqueEsteAno=0.70*(SaqueDoAnoPassado)+0.30 * (x * Patrimonio Atual).
      (Sobre a PWR para o Brasil, dá uma olhadinha no final do post: https://aposenteaos40.org/2026/01/2026-atualizacao-anual-da-taxa-segura-de-retirada-no-brasil.html)
      Abcs
      AAA40

  5. Excelente AA40! Já conhecia essa regra pelo nome de “Modelo de Yale”, mas nao imaginava que oferecia essa robustez. Agora fiquei curioso (já fica uma sugestao) para uma comparação dela com a minha regra preferida : a dos Guardrails de Guyton-Klinger.. Qual será a mais conservadora? Qual tem a melhor relação retorno/risco? Eu sei que no seu post sobre ela vc alertou para o fato de não proteger tão bem do risco da sequencia de retornos , porém utilizando uma taxa de retirada mais agressiva (5 a 6%). Será que usando uma mais conservadora (3.5 a 4%) com guardrails ela não seria superior a essa de Yale… isso só o AA40 pode responder heehe abço

    1. Fala MF, haha obrigado.
      Na verdade, o que chamamos de “Endowment Pessoal” no post é uma adaptação do modelo de Yale para comunidade FIRE: a versão original da Yale Endowment usa números e percentuais diferentes (por exemplo 5,25% de retirada, mas isto é ajustados à realidade das universidades e fundos americanos por que eles tem doação entrando todo ano e o FIREE não terá isso, pelo menos eu não hahaha). Então, adaptamos para o contexto FIRE no Brasil, com suavização 70/30 (mas modificáveis) e parâmetro x (TSR) mais compatíveis com nosso mercado.

      Vamos sim fazer uma comparação direta com os Guardrails de Guyton-Klinger em um futuro post. Um preview rápido: O Endowment Pessoal tende a oferecer renda mais estável ano a ano, enquanto os GK Guardrails podem permitir saques maiores em anos bons, mas com ajustes muito mais abruptos em mercados ruins; em termos de preservação do patrimônio, ambas funcionam bem, mas cada uma privilegia um equilíbrio diferente entre estabilidade de renda e captura de retorno. Obrigado pela sugestão, vai render uma análise interessante!
      Abcs
      AA40

    1. É isto BDZ, a beleza da regra do endowment é justamente essa: ela transforma um princípio intuitivo — gastar menos quando o mercado está caro ou fraco, e gastar um pouco mais quando ele está barato ou forte — em uma fórmula matemática simples, estável e fácil de seguir. Em vez de reagir emocionalmente a cada alta ou queda, o método suaviza as retiradas ao longo do tempo, misturando uma parte do gasto passado com uma parte do tamanho atual do portfólio. Isso cria um sistema que se ajusta automaticamente às condições do mercado, mas sem oscilações bruscas. É exatamente o que grandes endowments e family offices fazem: proteger o patrimônio em crises, capturar crescimento em períodos favoráveis e, acima de tudo, garantir previsibilidade para quem depende daquela renda. No fundo, é só bom senso transformado em matemática — e parece funcionar incrivelmente bem por décadas. Provavelmente usarei ela quando FIRE. Abcs

  6. Ótimo conteúdo AA40! Essa regra me parece uma variacao daquela dos guard rails como o pessoal comentou. Dá pra nerdear bastante em cima. Estou me coçando pra incorporar isso aí nas minhas planilhas haha.
    Será que o ERN nunca falou disso ? Lembro que ele nao gosta da estrategia de retirar um percentual fixo do patrimonio. Tipo se subiu retira mais, se cai retira menos. Porque se cai muito chega uma hora que fica inviavel viver de renda. Mas muito legal vc vir com um conteudo bom assim depois de tantos anos escrevendo.

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