Você precisa mesmo planejar sua aposentadoria até os 95 anos?
Existe uma premissa em praticamente toda simulação de aposentadoria que recebe bem menos atenção do que deveria. Você informa o patrimônio, o gasto anual, a alocação da carteira e talvez uma expectativa de retorno. Se a ferramenta for um pouco mais sofisticada, ela roda milhares de sequências históricas ou simulações de Monte Carlo e entrega uma probabilidade de sucesso. Só que toda essa matemática precisa responder antes a uma pergunta muito mais simples. Até quando o dinheiro precisa durar?
Nós mesmos fazemos isso nas calculadoras do AA40.
Quando rodamos uma simulação de Monte Carlo precisamos definir um horizonte. Se alguém se aposenta aos 42 anos e a simulação termina aos 95, estamos exigindo que a carteira sobreviva por 53 anos. Se mudarmos a idade final para 85, a mesma carteira precisa sobreviver apenas 43 anos. Naturalmente a probabilidade de sucesso muda.
Portanto este texto também é um pequeno mea culpa. Já mostramos muitas vezes probabilidades de sucesso, taxas de retirada e resultados de Monte Carlo sem dar à hipótese de longevidade o mesmo destaque que damos às outras variáveis. Não existe nada tecnicamente errado nisso. Alguma idade final precisa ser escolhida. Mas vale entender quanto dessa aparente precisão depende justamente dessa escolha.
O episódio 617 do ChooseFI levantou esse ponto recentemente. A discussão parte do fato de que muitas ferramentas de aposentadoria utilizam idades como 90 ou 95 anos e depois apresentam o patrimônio necessário como se fosse um único número. Em um dos exemplos apresentados no episódio, mudar a longevidade considerada alterou o patrimônio necessário em 41%. O número específico depende das premissas utilizadas e não deve ser transportado diretamente para o Brasil, mas a questão é válida.
Talvez a pergunta correta não seja se devemos planejar até os 95. Talvez seja por que escolhemos 95 e quanto essa escolha está custando.
O brasileiro não morre aos 76,6 anos: metade passa dos 81 — mas só 1 em 5 chega aos 90
Quando falamos de longevidade no Brasil, uma das primeiras estatísticas encontradas é a expectativa de vida ao nascer. Em 2024 ela chegou a 76,6 anos segundo o IBGE. Mulheres vive cerca de 6,6 anos a mais do que os homens. Baixe a tabela atuarial do IBGE aqui ou brinque com o widget abaixo.
Tábua de mortalidade — Brasil 2024
Compare a expectativa de vida por sexo e por idade. Fonte: IBGE, Tábuas Completas de Mortalidade 2024.
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Expectativas de vida em anos. Fonte: IBGE, Tabela 4 — Tábuas Completas de Mortalidade 2024.
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas (DPE/COPIS) — Tábuas Completas de Mortalidade, 2024. Para “ambos os sexos”, tábua completa; para homens e mulheres, expectativas de vida por idade selecionada.
Esse número é importante para demografia, saúde pública e comparação entre populações. Para uma pessoa de 40, 50 ou 60 anos planejando a própria aposentadoria, porém, ele não é o número que mais interessa.
Uma pessoa que já chegou aos 42 anos obviamente não está mais exposta ao risco de morrer aos 5, aos 20 ou aos 35. A informação mais útil passa a ser a expectativa de vida condicionada à idade que ela já atingiu.
A Tábua Completa de Mortalidade do IBGE permite justamente fazer essa análise. Ela mostra quantos integrantes de uma população hipotética permanecem vivos em cada idade e qual é a expectativa adicional de vida naquele ponto.
Isso também explica por que uma média nunca deveria ser usada como a idade final automática de um planejamento FIRE. Se a expectativa de vida de determinado grupo apontar para 80 anos, isso não significa que uma pessoa deva planejar o patrimônio para terminar aos 80. Aproximadamente metade da distribuição estará de um lado da média e uma parcela relevante continuará viva muitos anos depois.
Para aposentadoria, é justamente essa cauda que cria o problema.

Probabilidade de sobrevivência por idade usando a Tábua Completa de Mortalidade do IBGE 2024
O gráfico acima é mais útil para planejamento do que simplesmente saber a expectativa de vida ao nascer. Ele responde a uma pergunta diferente. Dada a idade que já alcancei, qual a probabilidade de ainda estar vivo aos 80, 85 ou 90?
É uma mudança pequena na pergunta, mas muda bastante a interpretação.
Casais precisam pensar no último sobrevivente
A situação fica ainda mais interessante quando existe um casal.
Uma aposentadoria familiar normalmente não termina quando o primeiro membro morre. O patrimônio ainda precisa financiar o sobrevivente. Por isso o horizonte relevante de um casal tende a ser mais longo do que o de uma pessoa isolada.
Usando as probabilidades da tábua brasileira para homem e mulher e uma aproximação simples de independência entre as duas longevidades, podemos estimar a chance de pelo menos um dos dois continuar vivo em determinada idade.
Para um casal de 42 anos, por exemplo, a probabilidade de pelo menos um membro chegar aos 90 é muito maior do que a probabilidade individual de um homem da mesma idade chegar aos 90. A conta não é perfeita porque pessoas que vivem juntas compartilham ambiente, renda, hábitos e alguns riscos, mas ela mostra bem por que usar uma idade final elevada não é simplesmente paranoia de planejador financeiro.

Probabilidade de pelo menos um integrante do casal continuar vivo
Esse detalhe é especialmente relevante no FIRE. Para alguém que deixa de trabalhar aos 40 ou 45 anos, o risco não é financiar apenas uma aposentadoria longa. Em muitos casos estamos financiando duas vidas durante várias décadas e depois mais alguns anos ou décadas do último sobrevivente.
Visto por esse ângulo, 90 ou 95 anos começa a parecer bem menos arbitrário.
Por que usamos 90 ou 95 anos
Existe uma boa razão para as calculadoras fazerem isso.O custo de errar os dois lados não é simétrico.
Se você planejar até os 95 e morrer aos 82, provavelmente deixará mais patrimônio para herdeiros ou terá consumido menos do que poderia. Isso certamente pode ser considerado um erro de planejamento. Você talvez tenha trabalhado mais do que precisava ou deixado de aproveitar parte do patrimônio. Mas se você planejar até os 82 e viver até os 95, o erro é muito mais difícil de corrigir.
Aos 90 anos talvez não exista mais a possibilidade realista de voltar ao mercado de trabalho. Gastos médicos e de assistência podem estar maiores. Sua capacidade de assumir risco financeiro provavelmente será menor. E justamente nessa fase você descobriria que economizou pouco demais décadas antes.
Por isso existe uma justificativa racional para colocar uma margem de segurança na longevidade.
É parecido com várias outras decisões que tomamos em FIRE. Não sabemos qual será o retorno futuro da bolsa, então não planejamos usando apenas a média histórica. Não sabemos exatamente qual será a inflação, então testamos cenários. Não sabemos qual será a sequência dos retornos, então usamos Monte Carlo ou séries históricas diferentes.
Também não sabemos quando vamos morrer. O erro seria tratar uma dessas hipóteses como certeza.
Onde o conservadorismo começa a se acumular
O problema mais interessante aparece quando várias premissas conservadoras são empilhadas.
Podemos assumir um retorno menor que o histórico. Depois escolher uma taxa de retirada de 3% para sermos prudentes. Podemos ignorar completamente o INSS porque não queremos depender dele. Podemos manter os gastos atuais constantes durante cinquenta anos mesmo sabendo que alguns tipos de consumo provavelmente cairão. Podemos exigir uma probabilidade muito alta de sucesso no Monte Carlo. Finalmente podemos exigir que tudo sobreviva até os 95 ou 100 anos.
Cada decisão isolada pode ser perfeitamente justificável.O conjunto pode não ser. Imagine uma pessoa que poderia atingir independência financeira aos 45 anos, mas decide trabalhar até os 52 porque todas as margens de segurança foram aplicadas simultaneamente. Se ela morrer aos 75, aqueles sete anos extras de trabalho não aparecem como uma falha no simulador. Pelo contrário. A simulação provavelmente mostrará um resultado excelente e um patrimônio enorme no final.
Financeiramente o plano foi um sucesso. Talvez a vida não tenha sido otimizada da mesma forma.
É esse equilíbrio que torna o tema interessante. O risco de ficar sem dinheiro é real. O risco de passar décadas acumulando dinheiro que nunca será utilizado também é real.
Quanto custa adicionar anos ao planejamento
Podemos isolar essa variável com uma conta muito simples. Suponha alguém que se aposente aos 42 anos, gaste R$ 60 mil por ano em valores de hoje e consiga um retorno real constante de 3% ao ano.
Se o objetivo fosse apenas financiar uma sequência previsível de saques, terminar a simulação aos 80 exigiria menos patrimônio do que terminar aos 90. Estender até os 95 acrescentaria mais alguns anos de consumo. Levar o cálculo até os 100 aumentaria novamente a necessidade.

Capital teórico necessário conforme a idade final do planejamento
Esse gráfico não é uma taxa segura de retirada e não substitui Monte Carlo. Ele faz algo mais simples e, para este artigo, mais útil. Mantém todo o resto constante e mostra exclusivamente o preço do horizonte adicional.
Depois podemos voltar para a simulação real.
Se uma carteira apresenta 95% de sucesso até os 85 anos e 82% até os 95, não existe contradição entre os dois resultados. São perguntas diferentes.
Da mesma forma, dizer que uma estratégia tem 90% de sucesso sem informar o horizonte é esconder uma parte importante da informação.
Esse é o principal ajuste que eu faria na forma como nós mesmos apresentamos alguns resultados no AA40 daqui para frente.
Como estimar uma longevidade razoável no Brasil
O ponto de partida mais simples é gratuito - Baixar as Tábuas Completas de Mortalidade 2024 do IBGE em XLSX. Também existe a publicação completa com a metodologia e as tabelas oficiais. Abrir a Tábua Completa de Mortalidade 2024 do IBGE
Eu começaria observando três coisas. A expectativa adicional de vida na idade atual, a probabilidade de sobrevivência até algumas idades mais altas e, no caso de casais, a possibilidade de pelo menos um dos membros continuar vivo.
Depois disso entram informações pessoais. Uma pessoa com histórico familiar de longevidade elevada, boa condição de saúde e acesso consistente a tratamento médico pode decidir usar uma margem maior. Alguém com circunstâncias diferentes pode chegar a outra conclusão. O objetivo não é transformar isso em uma previsão da data da morte. Nenhum cálculo consegue fazer isso com precisão individual.
Também precisamos reconhecer um possível viés importante para quem lê um blog sobre independência financeira. O leitor típico do AA40 provavelmente não representa perfeitamente o brasileiro médio. Patrimônio, educação, renda, acesso à saúde e comportamento podem produzir diferenças relevantes de mortalidade. Por isso a tábua do IBGE deve ser vista como uma base populacional e não como uma profecia pessoal.
Ela é um excelente ponto de partida justamente porque é objetiva, pública e atualizável.
Há ainda uma que considera seus hábitos de vida: Calculadora de Expectativa de Vida Brasil 2026
Uma calculadora não deveria escolher sua idade de morte
Nossa calculadora abaixo faz algo um pouco diferente.
Em vez de tentar dizer até que idade você viverá, ela mostra a consequência financeira de escolher diferentes horizontes. Você pode colocar sua idade atual, seu gasto anual, o retorno real esperado e a idade final do planejamento. Ao mesmo tempo, mostramos a probabilidade de sobrevivência derivada da tábua brasileira.
O custo real do FIRE: até onde seu dinheiro precisa ir?
Capital para cobrir seu gasto até a idade em que só uma pequena parcela da população ainda estaria viva: para você, para seu cônjuge (sexo oposto ao seu) e para o casal. Retorno real de 4% a.a. Mortalidade: tábua IBGE 2024.
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| Viver até | Você chega | Cônjuge chega | Casal (≥1) chega | Capital você | Capital cônjuge | Capital casal |
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Essa separação é importante.Uma coisa é a probabilidade atuarial de chegar aos 90.Outra coisa é decidir que sua carteira deve estar preparada para chegar aos 95 mesmo que a probabilidade seja relativamente pequena. A segunda é uma decisão de gerenciamento de risco. Não existe uma resposta universalmente correta.
Planejar até os 95 tem vantagens
A primeira é óbvia. Você reduz o risco de sobreviver ao próprio dinheiro. Também cria uma reserva implícita contra melhorias futuras de longevidade. Uma pessoa de 42 anos hoje não chegará aos 90 usando necessariamente a medicina disponível hoje. Tratamentos podem melhorar e algumas causas de mortalidade podem diminuir durante as próximas cinco décadas.
Para casais a margem também faz mais sentido porque o patrimônio precisa durar até o último sobrevivente. Existe ainda uma vantagem comportamental. Algumas pessoas simplesmente dormem melhor sabendo que o plano continua funcionando mesmo com um horizonte extremamente longo. Se trabalhar um ou dois anos adicionais não representar grande sacrifício, essa segurança pode valer o custo.
Planejar até os 95 também tem um preço
O primeiro custo é óbvio. Você precisa acumular mais patrimônio. Isso pode significar trabalhar por mais tempo.Pode significar gastar menos durante a aposentadoria. Pode significar deixar um patrimônio final muito maior do que desejava.
E pode gerar uma falsa sensação de precisão. Colocar 95 em uma calculadora não significa que conhecemos nossa longevidade. Significa apenas que decidimos proteger o plano contra aquele horizonte. O problema fica maior quando o horizonte de 95 ou 100 anos é combinado com outras premissas extremamente conservadoras. Nesse caso, talvez estejamos protegendo o mesmo risco várias vezes.
Talvez não precisemos escolher uma única idade
Depois de olhar para isso, acho pouco útil discutir se 90, 95 ou 100 é o número correto. Eu prefiro rodar os três. Se a aposentadoria funciona até os 85 mas quebra aos 90, temos uma informação importante. Se funciona até os 90 e fica apertada aos 95, sabemos exatamente quanto custa comprar aqueles cinco anos adicionais de proteção.
Se praticamente nada muda entre 90 e 100 porque existem INSS, renda vitalícia ou patrimônio muito acima do necessário, também aprendemos algo. Monte Carlo é especialmente útil nesse contexto porque permite testar diferentes horizontes sem fingir que sabemos qual deles acontecerá.
O que não faz muito sentido é rodar milhares de trajetórias futuras, obter uma probabilidade de sucesso com duas casas decimais e esquecer que todas elas foram encerradas no mesmo aniversário arbitrariamente escolhido por nós.
E a idade de 95 anos afinal
Depois de olhar os dados, eu não abandonaria os 95 anos nas nossas simulações. Para uma ferramenta genérica de FIRE, continua sendo uma premissa defensável e conservadora. Principalmente para casais e para quem se aposenta muito cedo, existe uma razão legítima para proteger a carteira contra uma vida excepcionalmente longa.
O que eu mudaria é a forma como mostramos isso. Em vez de tratar 95 como parte invisível do modelo, deveríamos mostrá lo como uma hipótese ajustável. Sempre que possível também vale comparar o resultado com 85, 90 e 100. Isso transforma uma suposta previsão de longevidade em algo muito mais útil. Uma análise de risco. Afinal, ninguém sabe se vai viver até os 73, 88 ou 101. Mas podemos saber quanto custa estar preparado para cada uma dessas possibilidades.







Excelente artigo mas ai eu sempre bato na tecla de que, pra um horizonte tao longo e incerto, com tantas variveis, nao eh mais seguro e simples planejar uma renda vitalicia? Qual a diferenca de tempo e esforco pra conseguir renda vitalicia versus planejar ate 90 a 100 anos? no fim com todo o conservadorismos acho que vai acabar sendo isso, uma renda vitalicia pra pessoa que esta planejando e pros herdeiros se for bem planejada, com pouco esforco ou anos a mais de renda ativa nesse caso.