CIRCUIT BREAKER? Lula vence, EWZ desaba e o mercado devolve o otimismo do primeiro turno

Atualização do post do primeiro turno- 26 de outubro de 2026.

Se o pregão de 5 de outubro entrou para a história pela alta de quase 8% do Ibovespa após o primeiro turno, a reação ao resultado do segundo turno está mostrando o outro lado (ou ainda pior) da mesma moeda.

Lula foi surpreendentemente reeleito presidente do Brasil neste domingo, 25 de outubro, derrotando Flávio Bolsonaro por aproximadamente 4,4 milhões de votos. O resultado contrariou a expectativa de parte relevante do mercado financeiro, que vinha apostando em uma mudança de governo e em uma possível guinada na política fiscal brasileira.

A reação nos ativos negociados no exterior foi imediata e severa. O EWZ, ETF que acompanha ações brasileiras nos Estados Unidos, chegou a registrar perdas próximas de 19% nas negociações noturnas, e cotações posteriores no pré-mercado apontaram uma queda próxima de 25% a 27% em relação ao fechamento de sexta-feira.

Bolsa pode ter circuit breakers após vitória de Lula

Fundo de ações brasileiras cai 27% nesta segunda e dólar futuro vai a R$ 5,55 em Chicago após vitória de Lula; há temores de circuit breaker

O que aconteceu com a euforia do primeiro turno?

No dia seguinte ao primeiro turno, o mercado havia precificado um cenário considerado mais favorável por muitos investidores: a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, acompanhada da expectativa de maior disciplina fiscal e de mudanças na condução da economia.

A bolsa subiu, o real se valorizou e os juros futuros recuaram fortemente. Naquele momento, o mercado não estava apenas comemorando o resultado de uma eleição. Estava recalculando o preço dos ativos com base em um cenário político que parecia mais provável.

O segundo turno mostrou como essa expectativa era vulnerável. Com a vitória de Lula, parte importante da valorização associada à perspectiva de alternância de poder passou a ser questionada. Investidores voltaram a avaliar os riscos fiscais, a trajetória da dívida pública, os juros, o câmbio e as perspectivas de crescimento econômico.

Em outras palavras, o mercado não esperou a posse do próximo governo para reagir. Ele começou a ajustar os preços assim que o cenário esperado mudou.

A queda pode continuar?

É possível, mas ninguém sabe até onde.

A abertura da B3 será especialmente importante para verificar como as ações brasileiras, os juros futuros e o câmbio incorporam o resultado eleitoral. As cotações de ETFs e recibos de ações negociados no exterior ajudam a antecipar o sentimento dos investidores, mas não determinam mecanicamente o desempenho do mercado doméstico.

Também existe um componente político adicional. Flávio Bolsonaro questionou a validade do processo eleitoral e ameaçou buscar a anulação do resultado, citando a decisão judicial que prorrogou o horário de votação. A contestação acrescenta incerteza institucional, embora a possibilidade de reversão do resultado não deva ser tratada como fato consumado.

Nos próximos dias, será importante acompanhar as primeiras sinalizações do governo eleito, as perspectivas para a política fiscal e a reação dos juros e do câmbio. Uma queda expressiva na abertura tampouco garante que o mercado continuará caindo pelo restante do pregão.

E o que muda para quem busca FIRE? Na prática, nada. Talvez apenas a confiança no Brasil cair ainda mais.

Mais uma eleição, mais uma reviravolta no mercado financeiro e mais uma oportunidade para lembrar que construir independência financeira exige olhar para horizontes muito maiores do que um mandato presidencial.

A bolsa sobe quando o mercado se anima com a possibilidade de mudança política. Depois, cai quando o resultado das urnas frustra as expectativas. O dólar oscila, os juros mudam de direção e os investidores tentam antecipar o próximo capítulo. Tudo isso faz parte do jogo.

Mas o que realmente muda para quem está construindo seu FIRE? Em princípio, nada.

Continuamos precisando gastar menos do que ganhamos, investir regularmente, diversificar o patrimônio e acumular recursos suficientes para sustentar nosso padrão de vida sem depender de um salário. Nenhum resultado eleitoral muda essa matemática. O que muda talvez é pensar melhor onde estamos colocando nosso dinheiro. A situação fiscal do Brasil não deve melhorar no curto ou médio prazo.

Isso não significa que a política seja irrelevante. As decisões do governo afetam o crescimento econômico, a inflação, os juros, a tributação e, consequentemente, o retorno dos investimentos. Ignorar esses fatores seria ingenuidade. O erro, porém, seria transformar cada eleição em uma razão para abandonar a estratégia de longo prazo.

Talvez a reflexão mais importante seja outra: até que ponto faz sentido concentrar tanto do nosso patrimônio no país em que vivemos?

Se recebemos nosso salário em reais, temos um imóvel no Brasil, pagamos nossas contas em reais e ainda mantemos praticamente todos os investimentos no mercado brasileiro, nossa vida financeira fica totalmente exposta aos mesmos riscos.

Uma crise econômica ou fiscal pode afetar simultaneamente o emprego, a bolsa, o câmbio e o valor dos nossos ativos. Diversificar entre ações, fundos imobiliários e títulos públicos brasileiros ajuda, mas não elimina a concentração geográfica.

Investir no exterior permite ampliar essa diversificação, participando de outras economias, empresas e moedas. Não é uma garantia de retornos melhores, muito menos uma aposta de que o Brasil vai dar errado. É simplesmente uma maneira de não depender exclusivamente do desempenho de um único país.

Isso também não significa que devamos vender nossos investimentos brasileiros às pressas ou correr para comprar dólares depois de uma queda do mercado. Decisões tomadas no calor do momento podem acabar fazendo mais mal do que bem.

A alocação ideal depende de cada pessoa: do patrimônio acumulado, do prazo até a independência financeira, das despesas futuras, da tolerância ao risco e da necessidade de liquidez. Para quem pretende viver no Brasil, continuar tendo recursos destinados às despesas em reais também faz sentido.

No fim, a eleição muda o cenário político e pode alterar as perspectivas econômicas. Mas não muda os princípios fundamentais do FIRE.

Talvez a lição seja apenas reforçar algo que já deveríamos saber: nossa independência financeira não deveria depender de quem ocupa o Palácio do Planalto, de um determinado nível do dólar ou de uma alta contínua da bolsa brasileira.

O objetivo não é abandonar o Brasil. É construir um patrimônio diversificado o suficiente para que o nosso futuro financeiro não dependa exclusivamente dele e da bagunça política de país de terceiro mundo.

O que fazer agora? NADA. Um dia como hoje o melhor é escutar esta meditação e esperar a poeira baixar.
Por outro lado, essa reação emocional do mercado também pode criar oportunidades para comprar boas empresas com grandes descontos. Em vez de estatais ou empresas dependentes do consumo interno, que podem sofrer com a deterioração fiscal e a aceleração da inflação, vale observar exportadoras e companhias com receitas em dólar, como WEG, Embraer e Suzano, além de empresas globais com operações diversificadas como Itaú. Mesmo assim, é importante avaliar os fundamentos e o preço de cada ação sob o contexto do governo que fica: uma queda forte, por si só, não significa que uma empresa esteja barata.

A principal lição do primeiro e do segundo turno

O primeiro turno mostrou como o patrimônio pode crescer rapidamente quando as expectativas mudam. O segundo turno está mostrando como esses ganhos podem desaparecer com a mesma velocidade.

Nenhum dos dois movimentos, isoladamente, prova que o mercado estava certo ou errado sobre o futuro do Brasil. Os preços refletem expectativas, probabilidades e riscos — e essas expectativas podem mudar novamente.

Para quem busca FIRE, a conclusão continua sendo a mesma, agora com um exemplo ainda mais contundente: seu plano não pode depender da vitória de determinado candidato, de um dólar específico ou de uma trajetória perfeita para a bolsa.

FIRE exige construir um sistema financeiro pessoal que continue funcionando quando o cenário político, econômico e de mercado deixa de colaborar.

O mercado pode mudar de direção em uma noite. Seu plano de independência financeira não deveria mudar na mesma velocidade.

Agora comente abaixo, quanto da sua carteira está fora do Brasil? (Já aproveite e responda ao anuário)

6 thoughts on “CIRCUIT BREAKER? Lula vence, EWZ desaba e o mercado devolve o otimismo do primeiro turno”

    1. É isso aí! Não vou mudar nada na minha estratégia, não vou vender, só vou continuar os aportes. Mas ver os títulos de renda fixa subirem de valor do nada deu uma animada (ainda que eu vá segurar até o vencimento, haha)!

  1. Eu aproveitei para liquidar uma parte importante da minha posição em R+65, a variação foi monumental, muito maior do que da bolsa e das ações que mais subiram. Foi uma posição montada pra esse fim, minha taxa média ponderada estava >7%.

    Vale lembrar que desde 2014, com Dilma, Bolsonaro e Lula, a Bolsa sobe forte na segunda após o pleito. Não tem a ver com candidato A ou B, mas com ancoragem de expectativas e clareza.

    Já no Tesouro, aí sim, a história é diferente. O movimento foi inédito em boa parte dos títulos ou o 2o maior da série (ficando atrás só da ocorrência de 2008).

  2. Excelente reflexão. Realmente gera adrenalina ver a marcação a mercado dos títulos do tesouro, mas para quem tem convicção do seu plano e das suas posições, não muda nada. Eu finalizei a montagem de uma posição em R+2035 semana passada, utilizando recursos do vencimento do TD IPCA 2026 e de LCI/LCAs que venceram recente. Como não vou vender, o consolo é saber que precisaria investir aproximadamente mais 80k para gerar o mesmo valor mensal de rendimento, e lamentar que não comecei a aportar nos demais vencimentos do meu plano.

    Valeu

  3. Caramba! É, viver num país desses é isto. Quem paga a conta fica p** enquanto quem venceu e vive na teta do governo comemora.

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