Entenda os detalhes da regra dos 4% diretamente do seu criador, Bill Bengen.

Paula Pants do blog FIRE americano Afford Anything (but not Everything) conversou com o criador da Regra dos 4%, Bill Bengen recentemente. Confira

Bill Bengen hoje aos 75 anos – Fonte: Paula Pants / Afford Anything

Paula: Se você é novo no planejamento de aposentadoria, talvez ainda não tenha entendido a importância disso. Vamos direto ao ponto: a regra dos 4% é um dos insights mais revolucionários e inovadores no campo da pesquisa sobre aposentadoria nos últimos 30 anos.

Para entender o porquê, vamos subir em nossas máquinas do tempo e retornar a 1994.

Naquela época, muitos consultores financeiros diziam a seus clientes que poderiam retirar com segurança 7% de sua carteira de aposentadoria a cada ano.

Afinal, a lógica simplista foi, o mercado de ações historicamente rendeu entre 7 a 9 por cento de retornos, então esse tipo de taxa de retirada não deve consumir o principal… certo? ⠀

Bill Bengen, um graduado do MIT e ex-cientista de foguetes, decidiu construir um modelo melhor. Ele analisou o desempenho das carteiras de investimento em horizontes de 30 anos, começando em 1926.

Sob a suposição de que a carteira está investida 50% em um índice S&P 500 e 50% em títulos de médio prazo, em uma conta aposentadoria (equivalentes a um PGBL/VGBL no Brasil), ele descobriu que os aposentados só poderiam sacar 4,2% de sua carteira no primeiro ano de aposentadoria, e esse valor ajustado pela inflação a cada ano subsequente.

Ele chamou isso de “taxa de retirada segura” que deu às pessoas uma chance razoável de não viver mais que seu dinheiro, com base no desempenho histórico.

Ele publicou os resultados no Journal of Financial Planning e causou um agito na comunidade de planejadores financeiros. Isso foi revolucionário. Ele derrubou as suposições que dominavam o campo na época.

E continua a ser uma pedra angular do planejamento de aposentadoria até hoje.

Conversamos com Bill Bengen sobre sua descoberta – e suas novas pesquisas – Escute abaixo:

Resumo:

-4,2% é considerada a TSR para o dinheiro em contas aposentadoria (algo talvez equivalente aos PGBL/VGBL no Brasil). Para contas tradicionais em corretora onde você paga o imposto normal, a TSR é cerca de 10 a 15% menor que 4,2, ou seja, 3,57% a 3,78% aa baseado em performance história dos mercados e renda fixa nos EUA.

-Para aposentadorias de cerca de 30 anos e o dinheiro em contas aposentadoria, a TSR sobe para até 4,7%aa. Ela se aproxima assintoticamente a 4,2% para infinitos números de anos (perpétua), o que ele chama de TSR Matusalém.

-Ele analisou diversas alocações em ações e o melhor intervalo, apesar de amplo, foi de 40 a 70%. Acima ou abaixo disso os resultados são impactados, seja por pouca exposição ao crescimento ou demasiada exposição ao risco (principalmente sequencias de retornos negativos no início)

4,2% é a TSR, taxa segura, o pior dos piores cenários na história (1966 por exemplo), não é a taxa ótima de saque, porém. Alguns aposentados em alguns anos conseguiam uma TSR de até 13% aa. Como isto é possível? Bill descobriu a cerca de 1 ano e meio atrás uma correlação que responde isto. Ele vai publicar seu novo livro em breve, sua ultima contribuição para o estudo, em que ele incorpora valuation dos mercados e inflação no momento da aposentadoria ou FIRE para definir a TSR ótima para aquele momento. Livro imperdível. M. Kitces já descobriu parte da equação usando Shiller PE.

-A regra dos 4% é uma ponto inicial, um cálculo simples que qualquer pessoa pode fazer com uma caneta e é essa simplicidade que fez a regra famosa. Ela não é o número final. Muitas pessoas ainda usam ela de forma errada, comumente elas usam 4% flat ou calculam ela para o valor na carteira a cada ano, o que é errado. Elas não sabem que a regra é calculada uma única vez no início apenas e já incorpora aumentos anuais para compensar a inflação, por exemplo, ou que ela só é tão “baixa” por causa do pior período de alguém se aposentando em 1966 nos EUA. Senão ela seria maior.

-Vivemos num momento em que todos os ativos estão caros e o FED inundou o mercado com liquidez, bonds estão caros e yield muito baixos. Agora os dois estão caindo juntos. Nunca tudo isto aconteceu ao mesmo tempo, então, o que o futuro reserva é naturalmente desconhecido e ninguém possui uma bola de cristal para saber o que acontecerá, mas temos indícios que o que aconteceu nos anos 1970 (alta inflação e altos juros com crescimento nulo – stagflation) poderia se repetir agora. De qualquer forma a regra dos 4% sobreviveu aquela época terrível.

PS: Imperdível artigo do MMM: Finalmente um bear market !

10 thoughts on “Entenda os detalhes da regra dos 4% diretamente do seu criador, Bill Bengen.

  1. Boa, AA40,

    Mts propagam idéias erradas desse estudo, acho que seu resumo foi muito bom em esclarecer que é 4% no primeiro ano, e dps atualiza pela inflação.

    Essas contas de aposentadoria poderiam existir no Brasil, seria um veículo muito interessante. Vcs as comparou com PGBL/VGBL, mas na minha ignorância acho elas mais parecidas com as “contas investimentos” que blindava as movimentações financeiras da CPMF (talvez muitos aqui não tenham vivido essa época, rsrsrs)

    Eu cheguei a traduzir esse artigo do Bill em que ele conclui os 4%. Se me permitir, deixo aqui o link para minha tradução.

    https://netofinancistadovelhobarreiro.blogspot.com/2022/02/o-famoso-estudo-da-tsr-de-4-traduzido.html

    Parabéns pelo post,

    Grande abraço.

  2. Boa noite AA40! A regra do 4% é muito útil para cálculos rápidos mesmo, mas para acompanhamento do FIRE acho que a TNRP defendida pelo André do Viagem Lenta é uma alternativa mais interessante. O bom pra nós brasileiros é que, ao contrário dos EUA, devido às nossas elevadas taxas de juros, a consideração de 4%aa de taxa de retirada é até bem conservativa. Não precisamos nem da RV pra atingir isso… só com RF já conseguimos.

    Grande abraço!

      1. Sem dúvidas, mas o pessoal mesmo assim insiste em investir só em bolsa e no final não conseguem nem superar a inflação e acham que estão ganhando

  3. AA40 uma questao meio besta
    devo corrigir os 4% pela inflaçao entao todo ano ?
    por exemplo se comecei ano passado 4
    esse ano seria 4,48% o permitido sendo a inflaçao 12% ano passado e assim por diante
    ano que vem 4,48 mais 12 % se a inflacaco mantiver 12 por cento e assim sucessivamente ?

    1. Isso, o primeiro ano é 4% fixo, suponhamos 40 mil de 1 milhão. No segundo ano é os 4% (40 mil) *1.12 no exemplo = R$44.800, no terceiro os 44.800 * 1.12 novamente= R$50.176,00 e assim por diante. Abcs

        1. Não tenho mesmo Anon. Na verdade achei que ninguém mais acessava o AA40…o tráfego tem andado baixo ultimamente, acho que devido a situação financeira da população, cada vez mais endividada e gastando hoje o salário do próximo mês sempre. Mas quem sabe um dia este blog sirva seu propósito e ajude mais pessoas a descobrir que é possível ajustar as finanças e viver bem com propósito. Esperamos um futuro melhor sempre né. Abcs

  4. O que acham da estratégia de usar esse 4 a 6% de Taxa de retorno com uma carteira de ações de dividendos.
    Focando em comprar boas empresas com histórico de pagamento de dividendos mirando em 6% de Yield.

    Como exemplo, gerar uma renda de 10 mil reais.

    Premissas:
    – Rentabilidade anual 11,74% (Retorno médio dos ultimos 50 anos do IBOV em dolar: Fonte Economatica);
    – Aporte 3000 mês;
    – Tempo de 20 anos aproximadamente.

    Com uma carteira de 2 milhões geraria uma renda de 10 mil de dividendos com Yield de 6%

    10 mil x 300 = 3 milhões – Tempo Médio: 21 anos – Taxa de retirada/retorno: 4%
    10 mil x 240 = 2,4 milhões – Tempo Médio: 19,5 anos – Taxa de retirada/retorno: 5%
    10 mil x 200 = 2 milhões – Tempo Médio: 18 anos – Taxa de retirada/retorno: 6%

    Algo que pode potencializar e acelerar o projeto é aproveitar as quedas pra comprar em momento de forte medo do mercado, aproveita e comprar mais ações de boas pagadoras de dividendos a preços mais baixos e com uma relação de Yield ainda maior que o alvo de 6%.

    Além é claro de aumentar os aportes ao longo do tempo.

    Acham essa estratégia viável ou muito otimista?

    1. Como toda estratégia stock picking, o difícil é fazer isto com consistência no longo prazo: “Focando em comprar boas empresas com histórico de pagamento de dividendos mirando em 6% de Yield.”
      Como sempre falamos, boa empresa é um conceito relativo e momentâneo. A melhor empresa de 2013 (Cielo) é hoje considerada péssima. Se você souber o que está fazendo tem chance de 60% de dar certo, o resto é acaso.
      Se não tiver tempo, interesse ou vontade de ficar vidrado no mercado e lendo relatórios e balancetes todo trimestre, melhor indexar como falamos aqui
      https://aposenteaos40.org/2019/10/por-que-e-preciso-indexar-mesmo-no-brasil.html
      Abcs

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